domingo, 23 de agosto de 2026

Álvaro Feijó (1917–1941): pioneiro do neo-realismo poético


         Em 1941, com apenas vinte e quatro anos de idade, faleceu, em Coimbra, o poeta vianense Álvaro Feió, de nome completo Álvaro de Castro Sousa Correia Feijó. Fez os estudos secundários no colégio dos jesuítas de La Guardia, na vizinha Galiza, prosseguindo depois a sua formação no Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Concluídos os estudos liceais, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

    Influenciado pela obra de seu tio-avô António Feijó (1859-1917), introdutor e exímio cultor do parnasianismo francês no nosso país, Álvaro Feijó escreveu os seus Primeiros Versos que, segundo os críticos, constituem a manifestação de um talento poético embrionário, caracterizada por um ensaio de versificação parnasiana. Os poemas da adolescência na subjetividade do «eu» e nos temas do amor, reeditando tensão entre o amor espiritual e o carnal. Por outro lado, o poeta procura definir o seu próprio caminho poético, denunciando uma crise de identidade, dividido entre a sua condição de aristocrata e as exigências da transformação social, que na Coimbra de finais dos anos trinta do século passado, estiveram na origem da afirmação do movimento neo-realista. Disso é testemunho o legado poético que deixou, no qual os temas de mais fundas raízes na cultura e na literatura portuguesas se irmanam com uma consciência social.

    Álvaro Feijó não foi apenas o continuador, noutro plano, das tradições poéticas da família, pois deixou na sua obra um documento e uma lição de grande valor humano. Era um poeta sedento de perfeição e de beleza, numa luta constante consigo mesmo e até com o meio, forma única de se superar.


    Os versos de Álvaro Feijó foram publicados em revistas como “Sol Nascente”, “O Diabo”, “Altitude” e “Seara Nova” e, postumamente, no “Novo Cancioneiro”. Companheiro no exercício poético de Políbio Gomes dos Santos, Joaquim Namorado e João José Cochofel, e ligado aos princípios do
movimento neo-realista, a sua poesia sofre a trágica influência da Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e da Segunda Guerra
Mundial. Não é por acaso que em Corsário, que veio a lume em 1940, o único livro que publicou em vida, há um apelo fundamental à reforma da sociedade e da justiça social, bem como ao esvaziamento dos conteúdos religiosos, substituídos por temas laicos. No Diário de Bordo, que ficou incompleto devido à doença implacável, assiste-se a uma nova estratégia temática, com versos de sarcasmo feroz dirigidos à própria classe aristocrática, ridicularizada nos seus atos de mundanidade frívola, numa ironia de feição queirosiana.

    Álvaro Feijó dedicou-se também ao teatro, tendo sido encontrados entre os seus manuscritos alguns esboços de peças.

    Os Poemas de Álvaro Feijó, livro que reúne Primeiros Versos, Corsário e o inacabado Diário de Bordo, teve a sua primeira edição em Coimbra, em 1941, integrada no Novo Cancioneiro e com prefácio de Armando Bacelar. A obra conheceu posteriormente mais três edições: uma em 1961, por João José Cochofel, na “Portugália”; outra em 1978, na “Brasília Editora”; e, por fim, em 2005, por seu irmão Rui Feijó, na “Evoramons Editores”, onde exprime a convicção de que Álvaro Feijó sentiria alegria se pudesse saber que a sua poesia permanece no imaginário de várias gerações, que figura em todas as antologias responsáveis da poesia do tempo em que viveu e que continua a ser editado.



quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Ruben Andresen Leitão (1920–1975): um escritor apaixonado por Viana e pelo Alto Minho

         

                Ruben A. é o nome literário de Ruben Alfredo Andresen Leitão, nascido em Lisboa a 26 de maio de 1920, e falecido em Londres a 26 de setembro de 1975. Filho de Ruben da Silva Leitão e de Gardina Andresen, estudou as primeiras letras com D. Maria Emília Almada e, depois de completar os estudos liceais no Porto, onde vivia, mudou-se, em 1939, com os pais para Lisboa, matriculando-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1942, transferiu-se para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde viria a completar a sua licenciatura, em 1945.

Iniciou a sua carreira profissional como professor do ensino secundário, no Porto. Como bolseiro do Instituto de Alta Cultura (1947-1948), obteve, no King’s College da Universidade de Londres, o grau de Master of Arts, após o que é nomeado leitor de Português naquela instituição, onde se manteve até 1952. De regresso a Portugal, foi impedido pelo regime de Salazar de prosseguir uma carreira académica ou de trabalhar em instituições culturais do Estado.

A partir de 1954, trabalhou na Embaixada do Brasil, em Lisboa, funções que cumpriu até 1972, ano em que foi escolhido para exercer o cargo de administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Em dezembro de 1974, foi nomeado director-geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura, cargo que deixou de exercer alguns meses depois para assumir funções docentes na Universidade de Oxford.

Como escritor, e assumindo literariamente o nome de Ruben A., estreou-se com a publicação do primeiro volume de Páginas (1949), série literária de cariz diarístico que viria a ser composta por seis volumes. A sua produção literária reparte-se por dezenas de obras de ficção (romance, novela, conto e teatro), autobiografia e ensaio, salientando-se, neste último domínio, os estudos que desenvolveu sobre a figura do rei D. Pedro V, de quem se tornou profundo conhecedor e a quem dedicou diversos trabalhos.

Ruben A. manifestou sempre uma verdadeira paixão pelo Alto Minho. Em Carreço, junto ao farol de Montedor, construiu uma casa de férias a que deu o nome de «Sargaço». No cemitério desta freguesia, a 8 de outubro do ano da sua morte, foi sepultado em campa rasa, por sua expressa vontade.

 Em Viana do Castelo, entre 1965 e 1968, organizou as Semanas de Música, evento cultural que trouxe à cidade importantes nomes da cultura portuguesa. O amor pela região vianense e o empenho com que sempre promoveu a cultura, valeram-lhe, a título póstumo, em 2000, a Medalha de Mérito da Cidade de Viana do Castelo, distinção que lhe foi atribuída pelo Município. Refira-se ainda que, em 1973, Ruben A. havia sido agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2020, ano em que se assinalou o centenário do nascimento de Ruben A. (1920-2020), a Câmara Municipal de Viana do Castelo reeditou “Páginas Minhotas”, obra com que já havia homenageado o autor no ano de 2000, evocando novamente a sua figura e dedicando-lhe a 40ª edição da Feira do Livro de Viana do Castelo.

A obra corresponde, originalmente, a uma edição realizada pela Câmara Municipal de Viana do Castelo em 2000. Por se encontrar praticamente esgotada, foi reeditada em 2020 para assinalar o centenário do nascimento do autor. Recorde-se que, em “Páginas Minhotas”, se reúnem onze textos e crónicas que Ruben A., publicados, inicialmente, em 1946 no periódico portuense Jornal de Notícias e, posteriormente, em 1966, 1968[1], 1970, 1971, 1972 e 1975 no Diário Popular, de Lisboa.

Ao longo de uma vida intensa de atividade como professor, escritor e investigador, Ruben A. publicou diversas obras, que aqui destacamos:

Obra histórica (por ordem cronológica): O método e o pensamento religioso nas “Pensées” de Pascal. Coimbra: Instituto de Estudos Franceses, 1945; Cartas de D. Pedro V ao Conde de Lavradio. Porto: Portucalense Editora, 1945; Antero de Quental – Uma carta inédita a Maria Amália Vaz de Carvalho. In “Revista Insulana”. Ponta Delgada: Instituto Cultural, 1949. Separata; Os vencidos da vida. In “Revista Insulana”. Ponta Delgada: Instituto Cultural, 1950; Diário de D. Pedro V – viagem a Inglaterra em 1854. In “Revista da Faculdade de Letras de Lisboa”. Lisboa. 2.ª série, t. XVII, n.º 3(1950). Separata; D. Pedro V – um homem e um rei. Porto: Portucalense Editora, 1950;  Portugal land of poets. In “The Hispanic & Luso-Brazilian Cpouncils”. Londres. Vol. 4, n.º 6 (Abr. 1951), p 8-9; vol. 5, n.º 1 (Jun. 1951), p. 5-7; Cartas de D. Pedro V ao príncipe Alberto. Lisboa: Fundação da Casa de Bragança: Portugália Editora, 1954; D. Pedro V e Herculano. Coimbra: Coimbra Editora, 1954; Documentos dos arquivos de Windsor. Coimbra: Coimbra Editora, 1955; Novos documentos dos arquivos de Windsor. Coimbra: Coimbra Editora, 1958; Cartas de D. Pedro V aos seus conterrâneos. Lisboa: Livraria Portugal, 1961 (Edição comemorativa do centenário da morte de D. Pedro V); Tratados e actos internacionais: Brasil – Portugal. Lisboa: Edições Sepro, 1962; D. Pedro V: Contribuição para a sua bibliografia. In “Boletim Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira”. Lisboa. vol. V, n.º 1 (1964), p. 70-108; Os templos da Núbia Abu Simbel. In “Colóquio: revista de artes e letras”. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. N.º 29 (Jun. 1964), p. 22-31. Separata; Relações de família. In “Revista Shell”. Lisboa. N.º 351 (Out.-Dez. 1964), p. 8-11; Uma polémica real: polémica de D. Pedro V com o capitão Luís Pimentel. In “Anais da Academia Portuguesa da História”. Lisboa. 2.ª série, vol. 15 (1965). Separata; O anil: documentos para a sua história. In “Revista Geographica”. Lisboa: Sociedade de Geografia. Nº 5 (Jan. 1966), p. 50-59. Separata; Moinhos manuais de café. In “Revista Geographica”. Lisboa: Sociedade de Geografia. N.º 7 (Jul. 1966), p. 29-37. Separata; Três símbolos de uma época. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1966. Separata; Inéditos de D. Pedro V nos arquivos reais de Windsor.  In “Revista Ocidente”. Lisboa. Vp. 70-71 (Dez. 1966). Separata; Cartas de D. Pedro V ao imperador do Brasil. In “Revista Ocidente”. Lisboa. (Nov. 1969). Separata; Diário da viagem a França Del-Rei D. Pedro V (1855). In “Memórias e Documentos para a História Luso-Francesa – VI”. Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, 1970; O Solar dos Brasis. In “Revista Ocidente”. Lisboa. Vol. LXXXI, 1971, p. 29-37. Separata; A importância do fundo do Real Erário para a história do Brasil. In “Subsídios para a História Portuguesa”. Lisboa: Academia Portuguesa da História. N.º 11 (1972); António Nobre: o poeta dos nomes certos. In “Revista Municipal”. Lisboa. N.º 136-137 (1973), p. 31-42. Separata; O significado das eleições de 1856. In “Sillages”. Poitiers. N.º 4 (1974), p. 89-113. Separata; A acção diplomática do Conde de Lavradio em Londres (1851-1855). In “Memórias da Academia das Ciências de Lisboa – Classe de Letras”. Lisboa. T. XVI (1975), p.7-74. Separata; Perfil de um mestre. In “Colectânea de estudos em honra do Prof. Damião Peres”. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1974. p. 21-36, Dicionário da História de Portugal (colaboração). Direcção de Joel Serrão. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1963.


Obra Literária (por ordem cronológica): Páginas I. Coimbra: Coimbra Editora, 1949; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996; Páginas II. Coimbra: Coimbra Editora, 1950; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997; Triálogo (teatro), 1951; Caranguejo (romance). Coimbra: Coimbra Editora, 1954; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988; Páginas III. Coimbra: Coimbra Editora, 1956; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998; Cores (contos). Lisboa: Edições Ática, 1960; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1989; Páginas IV. Coimbra: Coimbra Editora, 1960; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999; Um adeus aos deuses: Grécia. Lisboa: Livraria Portugal, 1963; reimp. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010; Júlia: uma peça em dois actos (teatro). Lisboa: Livraria Portugal, 1963; reimp. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007; Jardim ancorado. In “Colóquio: revista de artes e letras”. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. N.º 31 (Dez. 1964), p. 59-63; A Torre da Barbela (romance). Lisboa: Livraria Portugal, 1964; 2.º ed. 1965; 3.ª ed. rev. precedida de ensaio de José Palla e Carmo. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, [1966]; reed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1995; reimp. Lisboa: Livros do Brasil, 2020; O mundo à minha procura: autobiografia I. Lisboa: Livraria Portugal, 1964; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992; Relato de 1453 (teatro),1965; O outro que era eu (novela). Lisboa: Livraria Portugal, 1966; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1991; O mundo à minha procura: autobiografia II. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1966; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1993; Páginas V. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1967; reimp. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000; O mundo à minha procura: autobiografia III. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1968; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1994; Páginas VI. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1970; reimp. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001; Silêncio para 4 (romance). Lisboa: Morais Editores, 1973; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990; Kaos (romance). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981; 2.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.

Ruben A. e Pedro Homem de Mello

 



[1] Texto censurado e, por esse motivo, não publicado nessa data.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

António Manuel Couto Viana (1923 – 2010): uma vida entre as letras e o palco

    

                          Poeta, dramaturgo, contista, ensaísta, memorialista, tradutor, encenador, ator, gastrólogo e autor de
livros para crianças, António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo a 24 de janeiro de 1923, sendo o mais novo de três irmãos, e morreu em Lisboa a 8 de junho de 2010.

    António Manuel Couto Viana cresceu e viveu ligado às artes e às letras. Publicou meia centena de livros de poesia e cerca de oitenta títulos de outros géneros literários, com relevo para os livros de ensaios e memórias.

    Durante a infância e juventude viveu muito ligado ao Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, e, aos 15 anos, escreveu uma revista à portuguesa sobre a vida escolar e a vida citadina que, incentivado pelos seus professores, levou à cena neste teatro.

    Aos 23 anos mudou-se com a família para Lisboa e rapidamente se integrou no meio cultural da capital, criando amizades duradouras com, entre outros, David Mourão-Ferreira e Sebastião da Gama.

    Aí, desde cedo, dirigiu o seu interesse para o teatro, começando por colaborar como ator, cenógrafo e encenador no Teatro Estúdio do Salitre (1948-1950). Integrou a direcção do Teatro de Ensaio do Teatro Monumental (1952) e foi empresário e director do Teatro do Gerifalto (1956-1960), especializado em espectáculos infantis, e também da Companhia Nacional de Teatro (1961-1965). Em 1966, diplomou-se em Teatro, em Veneza, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. A sua atividade artística
mereceu-lhe o Prémio Nacional António Pinheiro (por duas vezes) e o Prémio da Crítica. Entre as funções que exerceu ao longo da vida contam-se ainda as de orientador artístico da Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra, Mestre de Arte de Cena do Teatro Nacional de São Carlos e colaborador da Ópera de Câmara do Real Theatro de Queluz. Encenou para o Círculo Portuense de Ópera e para a Companhia Portuguesa de Ópera (Teatro da Trindade). Com ator, participou em filmes portugueses e estrangeiros e em peças para o palco e para a televisão.

    A sua estreia literária verificou-se em 1948 com o livro de poemas O avestruz lírico. Com David Mourão-Ferreira e Luiz de Macedo, dirigiu as folhas de poesia Távola Redonda (1950-1954) e a revista de cultura Graal (1956-1957), tendo ainda feito parte do conselho de redacção da revista Tempo Presente (1959-1961).

    Além do teatro e da poesia, António Manuel Couto Viana dedicou-se também à literatura infantojuvenil, escrevendo e traduzindo livros e dirigindo publicações como a revista Camarada (1949-1951). De referir que uma parte significativa da sua atividade teatral, como ator, encenador e autor, se orientou para as crianças.

    A obra poética de António Manuel Couto Viana figura nas principais antologias de língua portuguesa e espanhola, e poemas seus foram traduzidos para castelhano, inglês, francês, alemão, russo e chinês. A sua poesia foi estudada por David Mourão-Ferreira, Artur Anselmo, Tomaz de Figueiredo, Eduíno de Jesus, Rodrigo Emílio, João Maia, Franco Nogueira, João Bigotte Chorão, José Carlos Seabra Pereira, Beatriz Basto da Silva, Mário Saraiva e Joaquim Manuel Magalhães. Via-se, em primeiro lugar, como poeta, embora o texto dramático, o ensaio, a gastrologia e o conto, género que experimentara já em jovem, tenham igualmente marcado a sua intensa produção literária.

    Foi galardoado com o Prémio Antero de Quental (em 1949 e 1969), o Prémio Luso-Galaico Valle-Inclan (em 1960), o Prémio Nacional de Poesia (em 1965), o Prémio da Academia de Ciências (em 1971), o Prémio de Literatura da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (em 1988) e o Prémio Camilo Pessanha (em 1992), da Fundação Oriente.


    De 1986 a 1988, viveu em Macau, onde exerceu funções docentes no Instituto Cultural. Em 1989, a convite de David Mourão-Ferreira, passou a integrar a Comissão de Leitura dos Serviços de Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian, na área da literatura infantojuvenil, mantendo posteriormente a sua colaboração no Conselho de Leitura da Fundação, na Secção Ensino e Bolsas. Nos últimos anos de vida residiu na Casa do Artista, em Lisboa, onde permaneceu até ao seu falecimento, em junho de 2010.  

    Foi agraciado com a Banda da Cruz de Mérito, a Grã-Cruz da Falange Galega e o Grande Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique. O Município de Viana do Castelo atribui-lhe a Medalha de Mérito Cultural e dedicou a Sala Couto Viana, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, ao escritor e à sua família.








sexta-feira, 14 de agosto de 2026

As Festas d’Agonia na memória de Viana: guardar a festa para além da festa


            Há uma altura do ano em que Viana do Castelo parece reconhecer-se ao espelho. As ruas mudam de ritmo, as casas ganham outra luz, os sons da cidade tornam-se diferentes e, por alguns dias, aquilo que habitualmente se encontra disperso: a memória, a devoção, a festa, o trabalho, a tradição e o orgulho de ser de Viana, parece reunir-se num mesmo lugar.
Programa - 2026

    Chegam as Festas d’Agonia!

    Há quem as viva desde sempre. Há quem as descubra pela primeira vez. Há quem espere pelo cortejo, pelo traje, pelos gigantones e cabeçudos, pela procissão ao mar, pela música, pelo fogo, pela alegria das ruas. E há também quem, dentro de uma biblioteca, procure aquilo que permanece quando a festa termina. Porque uma festa também se guarda. Guarda-se na memória das pessoas, naturalmente. Nas histórias contadas à mesa, nas fotografias de família, nas recordações dos avós, nos nomes daqueles que já partiram e continuam presentes cada vez que alguém fala de um determinado ano, de um determinado cortejo ou de uma determinada imagem. Mas guarda-se também nos documentos.

    Um cartaz antigo, um programa de festas, uma fotografia, uma publicação, uma notícia de jornal, um postal, uma coleção de imagens ou um simples folheto podem parecer, à primeira vista, apenas testemunhos de uma celebração que passou. Na verdade, são pequenas portas abertas sobre a história da cidade. É através deles que podemos voltar a ver uma Viana diferente. Perceber como eram as ruas, como se vestiam as pessoas, quais eram os percursos das procissões, que palavras se usavam para anunciar a festa, que instituições participavam, que tradições permaneciam e quais foram desaparecendo ou transformando-se. Porque nenhuma tradição é exatamente igual à tradição de ontem. É essa talvez uma das características mais interessantes do património cultural: a sua capacidade de permanecer mudando.

    As Festas d’Agonia são uma tradição profundamente enraizada na identidade vianense, mas essa identidade não é uma peça de museu. Vive nas pessoas. Renova-se em cada geração. Os costumes são transmitidos, mas também reinterpretados. Os gestos repetem-se, mas cada época lhes acrescenta alguma coisa. Preservar a memória das festas não significa, por isso, tentar conservar uma imagem fixa de Viana. Significa permitir que possamos compreender como chegámos até aqui.

    É nesse trabalho, muitas vezes silencioso, que as bibliotecas desempenham um papel essencial. Longe de serem apenas lugares onde se guardam livros, são também espaços onde uma comunidade pode reencontrar os vestígios da sua própria história.
Programa - 1972



    Na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, a documentação relativa à cidade e às suas manifestações culturais constitui uma parte particularmente valiosa dessa responsabilidade. Ali encontramos materiais que nos permitem olhar para as Festas d’Agonia não apenas como acontecimento anual, mas como uma construção coletiva feita ao longo de gerações. E talvez seja precisamente essa dimensão que mais importa sublinhar. A festa pertence às pessoas. A memória da festa pertence também à comunidade. Por isso, preservar fotografias, programas, cartazes e outras publicações não é apenas conservar papel, imagens ou objetos. É preservar nomes, rostos, lugares, práticas, emoções e modos de viver. É garantir que uma criança de hoje poderá, daqui a muitos anos, descobrir como os seus avós viviam as festas. É permitir a um investigador compreender a evolução de uma tradição. É possibilitar a alguém que regressa a Viana depois de muitos anos reconhecer, num documento antigo, uma cidade que julgava esquecida. Há, neste gesto, uma responsabilidade cultural que não deve ser subestimada.


    Vivemos num tempo em que quase tudo é fotografado e imediatamente partilhado. A quantidade de imagens produzidas durante as festas é incomparavelmente maior do que em qualquer outra época. Mas produzir memória não é o mesmo que preservar memória. A fotografia que fica esquecida num dispositivo pode desaparecer. A publicação que não é identificada pode perder-se. O testemunho de quem viveu uma determinada época pode deixar de ser transmitido. Por isso, a preservação da memória local exige atenção, seleção, organização e, sobretudo, uma relação próxima com a comunidade. 

    Talvez seja aqui que a biblioteca possa desempenhar uma das suas funções mais bonitas: convencer-nos de que aquilo que hoje parece banal poderá ser, amanhã, um documento precioso. Uma fotografia de uma família junto ao cortejo. Um programa guardado numa gaveta. Um cartaz que alguém decidiu não deitar fora. Uma pequena publicação produzida por uma associação. Um testemunho escrito por quem
Programa - 1976
 participou numa tradição. São fragmentos. Mas é de fragmentos que a memória coletiva também se constrói. E há uma particular responsabilidade quando falamos de património cultural imaterial. Os usos e costumes não sobrevivem apenas porque são registados. Sobrevivem porque continuam a ser vividos, partilhados e reconhecidos pelas comunidades. A documentação ajuda-nos a não esquecer. A comunidade ajuda-nos a manter vivo.

    É nesta relação entre memória e presente que as Festas d’Agonia ganham uma dimensão que ultrapassa o calendário festivo. Todos os anos, Viana celebra o que recebeu das gerações anteriores, mas celebra também aquilo que está a transmitir às gerações seguintes. Talvez por isso uma biblioteca possa ser vista como uma das casas discretas da festa.


    Quando as ruas se silenciam, quando as bandeiras são retiradas e quando os últimos sons da celebração se afastam, permanecem as histórias. Permanecem as imagens. Permanecem os documentos. Permanece a possibilidade de voltar a olhar para tudo aquilo que aconteceu. E é nesse momento que a biblioteca volta a entrar em cena. Não para substituir a festa, nem para a transformar em objeto distante, mas para ajudar a compreendê-la.
Programa -1955



    Guardar a festa para além da festa é, afinal, uma forma de cuidar da cidade. Porque cuidar do
património não é apenas proteger monumentos ou objetos antigos. É também cuidar das histórias que dão significado aos lugares, dos costumes que ajudam uma comunidade a reconhecer-se e das memórias que ligam diferentes gerações.

    Em Viana do Castelo, as Festas d’Agonia são uma dessas grandes expressões de identidade. Todos os anos voltam. Mas cada ano acrescenta uma nova página à história.


    E enquanto houver quem celebre, quem conte, quem fotografe, quem guarde e quem preserve, essa história continuará a ser escrita. Na rua, nas casas, na memória das pessoas. E também na biblioteca.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

"Cadernos Vianenses": uma história que continua a escrever-se

            A apresentação do Tomo 59 dos Cadernos Vianenses constitui mais um marco na vida cultural de Viana do Castelo. Não se trata apenas da publicação de um novo tomo, mas da continuidade de uma obra coletiva que, desde 1978, tem vindo a construir, de forma rigorosa e consistente, um dos mais importantes repositórios de conhecimento sobre a história, o património e a cultura de Viana do Castelo.

    Editados pela Câmara Municipal de Viana do Castelo desde o primeiro tomo, os Cadernos Vianenses afirmaram-se como uma publicação periódica de referência no panorama da historiografia regional portuguesa. Ao longo de quarenta e oito anos acolheram centenas de estudos originais, muitos deles hoje indispensáveis para quem investiga a história local, a arqueologia, a história da arte, a arquitetura, a etnografia, a antropologia, a genealogia, a literatura, a música, a religiosidade e tantas outras dimensões da identidade vianense.

    Num tempo em que a informação circula com enorme rapidez e frequentemente se esgota no imediato, uma publicação periódica desta natureza assume um valor particular. Cada tomo representa investigação aprofundada, sustentada em documentação, em trabalho de arquivo e em metodologias científicas exigentes. Não procura responder à atualidade do momento; procura antes produzir conhecimento duradouro, capaz de permanecer como fonte de consulta para investigadores e para todos aqueles que desejam compreender melhor a história da sua comunidade.

    É por isso que os Cadernos Vianenses ocupam um lugar de destaque nas bibliotecas. Mais do que uma sucessão de volumes, constituem um património bibliográfico que cresce tomo após tomo, enriquecendo o conhecimento disponível sobre Viana do Castelo. Nas bibliotecas municipais, universitárias, escolares e especializadas encontram-se preservados como fonte permanente de investigação, cumprindo uma das finalidades essenciais de qualquer publicação científica: permanecer útil muito para além da data da sua edição.

    Desde 2010, a direção editorial dos Cadernos Vianenses procurou consolidar este projeto, reforçando o rigor científico e editorial, conferindo maior regularidade à publicação dos tomos e promovendo a participação de investigadores de diferentes gerações e áreas do conhecimento. Ao mesmo tempo, entendeu-se que a renovação dos conteúdos não deveria significar uma alteração da identidade da publicação. Pelo contrário, manteve-se a fidelidade ao projeto concebido em 1978: o mesmo formato e aparato físico, a mesma imagem editorial e a continuidade da numeração desde o primeiro número publicado. Esta coerência, rara no panorama editorial português, constitui um dos traços distintivos dos Cadernos Vianenses e um sinal da maturidade de um projeto que soube evoluir sem renunciar à sua identidade.

    Este percurso só foi possível porque a Câmara Municipal de Viana do Castelo nunca deixou de assumir a edição dos Cadernos Vianenses como uma verdadeira missão cultural. Ao longo de quase cinco décadas, manteve uma aposta continuada na investigação, na edição e na divulgação do conhecimento, permitindo que esta publicação alcançasse um prestígio que hoje ultrapassa largamente os limites do concelho e da região.

    O Tomo 59 inscreve-se naturalmente nesta história. Representa mais um contributo para o estudo de Viana do Castelo, mais uma oportunidade para divulgar investigação inédita e mais uma etapa de um projeto que continua a afirmar que conhecer o passado é uma condição indispensável para compreender o presente e preparar o futuro.

    Os Cadernos Vianenses são hoje muito mais do que uma publicação periódica municipal. São um património cultural da comunidade, um espaço de encontro entre investigadores, um instrumento de preservação da memória e um testemunho da importância que Viana do Castelo atribui ao conhecimento da sua própria história.

    Ao chegar ao Tomo 59, os Cadernos Vianenses demonstram que a continuidade, quando assente no rigor, na exigência e na fidelidade a um projeto cultural, é também uma forma de construir património. Esse é, talvez, o seu maior legado: terem feito da investigação histórica um serviço público e da memória um bem comum, legado que importa preservar e enriquecer para as gerações vindouras.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

"A Falar de Viana": uma revista ao serviço da cultura e da memória


        Em 1995, por ocasião da Romaria em Honra de Nossa Senhora da Agonia, Viana do Castelo vê nascer pelas mãos da VIANAfestas – Associação Promotora das Festas da Cidade, uma publicação cultural que, ao longo dos anos, se afirmou como espelho fiel da sua identidade. Mais do que um simples registo de eventos, a revista A Falar de Viana tornou-se um testemunho vivo da história, da tradição e da criatividade das gentes vianenses. Uma das características desta publicação é a sua forte componente ilustrativa. Fotografias, gravuras e imagens de arquivo enriquecem visualmente os conteúdos, facilitando a compreensão dos temas abordados e aproximando o leitor dos cenários e emoções. As imagens não só embelezam a leitura, como preservam visualmente o património, eternizando momentos e rostos que fazem parte da nossa identidade coletiva.

    Com edições que rondam as 300 páginas, esta publicação com redação sedeada na Biblioteca Municipal, reúne um vasto conjunto de colaborações, abordando temas ligados à cidade, ao concelho e, naturalmente, às Festas da Agonia. Através da escrita, da imagem e da memória, constrói-se um retrato multifacetado da vida cultural e comunitária de Viana, tornando a revista simultaneamente objeto de leitura, espaço de reflexão e instrumento de preservação patrimonial.

    Este interesse assume uma elevada importância porque A Falar de Viana tem procurado manter, e até acentuar, a componente cultural desta secular “Romaria das Romarias”. Tal, só é possível, graças à prestimosa e generosa colaboração de autores que, empenhadamente e sem qualquer tipo de benefício pessoal, produzem textos de grande qualidade nos domínios da história, da antropologia, da etnografia, da arte e da religião, sem esquecer as vertentes literária e turística. A todos eles se deve um agradecimento profundo e sincero, pelo modo como enriquecem cada edição e ajudam a consolidar a identidade cultural de Viana do Castelo.

    É essa dedicação que faz com que esta publicação tenha entrado no coração de todos os que sentem o pulsar da cidade e das suas festas, identificando-se com o seu património cultural, com a força da tradição, com a riqueza da cultura e com a profunda e arreigada ligação ao mar das suas gentes, bem visível no sentimento, na exaltação e na expressão de arte e fé que marcam a Romaria d’Agonia. Ler a revista é, por isso, também participar neste movimento coletivo de memória e celebração.

    Em 2012, a revista iniciou uma nova etapa com o arranque da sua segunda série, sob nova coordenação editorial. Sem desvalorizar o trabalho anteriormente realizado, a nova equipa apostou numa reorganização gráfica e de conteúdos, com o objetivo de a tornar mais apelativa, estruturada e coerente. Foram introduzidas secções fixas que definem a sua identidade atual e facilitam a leitura, proporcionando um diálogo mais direto com os leitores.

    Na secção Memória, o leitor é convidado a recuar cem anos, numa evocação de como eram as festas e a cidade um século antes. Já em Registo, compilam-se textos e imagens que documentam o que se escreveu e publicou sobre a Romaria e a cidade ao longo das décadas, preservando o olhar de outros tempos. A Antologia Poética dá voz à dimensão literária da cultura local, reunindo poemas de autores vianenses ou inspirados por Viana. Na Coletânea cabem crónicas, ensaios e testemunhos, refletindo a diversidade de perspetivas sobre o território e a sua vivência. Através da Reportagem, recuperam-se os momentos mais marcantes do ano anterior, numa galeria de imagens que capta a alma festiva de uma cidade que se reinventa a cada agosto, sem nunca trair as raízes e os símbolos que a definem.

    A revista inclui ainda o programa oficial das Festas da Agonia, documento de consulta obrigatória para quem vive e visita a romaria. Mas, a sua função vai muito além do acompanhamento do evento: A Falar de Viana é um verdadeiro património editorial. Nas suas páginas encontram-se as pontes entre o passado e o presente, entre o olhar da tradição e os desafios contemporâneos da cultura local, entre a devoção e a criação artística, entre o íntimo e o coletivo.

    Hoje, esta publicação é uma referência regional e um exemplo de como a memória coletiva se cultiva também através do papel. Ao lado da Romaria, de que é companheira fiel, A Falar de Viana continua a enriquecer a vivência festiva e a contribuir para que a memória, a história e a identidade cultural da cidade permaneçam vivas nas gerações presentes e futuras.

sábado, 1 de agosto de 2026

As bibliotecas e a inteligência artificial


            
               As bibliotecas públicas desempenham, desde há muito, um papel central na democratização do
acesso ao conhecimento, à informação e à formação contínua dos cidadãos. Mais do que simples depósitos de livros, são centros culturais, educativos e sociais, onde o saber é partilhado livremente. Com o avanço da tecnologia, especialmente no campo da Inteligência Artificial (IA), estas instituições enfrentam hoje novos desafios e oportunidades para reinventar os seus serviços e fortalecer ainda mais a sua missão.

    A introdução da IA nas bibliotecas públicas pode representar um salto qualitativo na forma como se organizam, comunicam e servem as suas comunidades. No plano técnico, a IA pode automatizar processos essenciais como a catalogação de documentos, a classificação temática, a indexação e a organização do fundo bibliográfico. Algoritmos de “machine learning” podem aprender com os padrões de organização e otimizar esses processos, libertando os bibliotecários para tarefas mais especializadas.

    Outro campo promissor é o dos assistentes virtuais. A implementação de “chatbots” treinados com as bases de dados da biblioteca pode melhorar significativamente o atendimento ao público, respondendo a perguntas frequentes, orientando os utilizadores na pesquisa de documentos e informando sobre horários, regulamentos ou serviços disponíveis. Estes sistemas funcionam 24 horas por dia, promovendo um acesso contínuo à informação, mesmo fora do horário de funcionamento tradicional.

    A IA pode ainda ser um instrumento pedagógico poderoso, sendo utilizada para desenvolver atividades formativas em literacia digital e informacional. Oficinas sobre o uso crítico da tecnologia, simulações de pesquisa com IA e introduções práticas a ferramentas inteligentes são apenas alguns exemplos de como as bibliotecas podem educar os utilizadores para o mundo digital.

    Na gestão do conhecimento, a IA pode auxiliar na análise de grandes volumes de informação, ajudando a encontrar referências relevantes, gerar resumos automáticos, sugerir leituras complementares e estruturar conteúdos de forma coerente. Esta capacidade de tratar grandes volumes de informação torna-se particularmente útil num mundo em que a produção de conteúdos cresce de forma exponencial.

    A nível operacional, a automatização de tarefas rotineiras como o registo de empréstimos, a renovação de livros ou o envio de notificações com recurso à IA pode tornar o serviço mais eficiente e menos suscetível a erros. Para além disso, a análise de dados estatísticos como padrões de leitura, temas mais requisitados ou perfis dos utilizadores permite um planeamento estratégico mais eficaz, ajustando as coleções e atividades às reais necessidades da comunidade.

    Contudo, importa sublinhar que a integração da IA não substitui, mas antes valoriza o papel dos profissionais da informação. Os bibliotecários continuarão a ser mediadores fundamentais, com um papel central na curadoria de conteúdos, na validação da informação, na formação dos utilizadores e na adaptação ética da tecnologia aos valores humanistas que norteiam as bibliotecas públicas.

    Para além das funções já referidas, a IA pode também contribuir para a acessibilidade, ajudando a criar conteúdos em formatos alternativos (áudio, braille digital, leitura facilitada), promovendo uma inclusão mais efetiva de públicos com necessidades especiais. Pode ainda apoiar a tradução automática de conteúdos, facilitando o acesso à informação em diferentes línguas e promovendo a diversidade cultural.

    Em síntese, a Inteligência Artificial constitui uma ferramenta estratégica para reforçar a capacidade de resposta das bibliotecas públicas, desde que utilizada de forma crítica, ética e sempre orientada para o bem comum. A sua aplicação não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma aliada na missão de garantir um acesso livre, universal, qualificado e inclusivo ao conhecimento.



In “Correio do Minho” (18.09.2025)

Álvaro Feijó (1917–1941): pioneiro do neo-realismo poético

              E m 1941, com apenas vinte e quatro anos de idade, faleceu, em Coimbra, o poeta vianense Álvaro  Feió, de nome completo Álvaro...