sexta-feira, 14 de agosto de 2026

As Festas d’Agonia na memória de Viana: guardar a festa para além da festa


            Há uma altura do ano em que Viana do Castelo parece reconhecer-se ao espelho. As ruas mudam de ritmo, as casas ganham outra luz, os sons da cidade tornam-se diferentes e, por alguns dias, aquilo que habitualmente se encontra disperso: a memória, a devoção, a festa, o trabalho, a tradição e o orgulho de ser de Viana, parece reunir-se num mesmo lugar.
Programa - 2026

    Chegam as Festas d’Agonia!

    Há quem as viva desde sempre. Há quem as descubra pela primeira vez. Há quem espere pelo cortejo, pelo traje, pelos gigantones e cabeçudos, pela procissão ao mar, pela música, pelo fogo, pela alegria das ruas. E há também quem, dentro de uma biblioteca, procure aquilo que permanece quando a festa termina. Porque uma festa também se guarda. Guarda-se na memória das pessoas, naturalmente. Nas histórias contadas à mesa, nas fotografias de família, nas recordações dos avós, nos nomes daqueles que já partiram e continuam presentes cada vez que alguém fala de um determinado ano, de um determinado cortejo ou de uma determinada imagem. Mas guarda-se também nos documentos.

    Um cartaz antigo, um programa de festas, uma fotografia, uma publicação, uma notícia de jornal, um postal, uma coleção de imagens ou um simples folheto podem parecer, à primeira vista, apenas testemunhos de uma celebração que passou. Na verdade, são pequenas portas abertas sobre a história da cidade. É através deles que podemos voltar a ver uma Viana diferente. Perceber como eram as ruas, como se vestiam as pessoas, quais eram os percursos das procissões, que palavras se usavam para anunciar a festa, que instituições participavam, que tradições permaneciam e quais foram desaparecendo ou transformando-se. Porque nenhuma tradição é exatamente igual à tradição de ontem. É essa talvez uma das características mais interessantes do património cultural: a sua capacidade de permanecer mudando.

    As Festas d’Agonia são uma tradição profundamente enraizada na identidade vianense, mas essa identidade não é uma peça de museu. Vive nas pessoas. Renova-se em cada geração. Os costumes são transmitidos, mas também reinterpretados. Os gestos repetem-se, mas cada época lhes acrescenta alguma coisa. Preservar a memória das festas não significa, por isso, tentar conservar uma imagem fixa de Viana. Significa permitir que possamos compreender como chegámos até aqui.

    É nesse trabalho, muitas vezes silencioso, que as bibliotecas desempenham um papel essencial. Longe de serem apenas lugares onde se guardam livros, são também espaços onde uma comunidade pode reencontrar os vestígios da sua própria história.
Programa - 1972



    Na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, a documentação relativa à cidade e às suas manifestações culturais constitui uma parte particularmente valiosa dessa responsabilidade. Ali encontramos materiais que nos permitem olhar para as Festas d’Agonia não apenas como acontecimento anual, mas como uma construção coletiva feita ao longo de gerações. E talvez seja precisamente essa dimensão que mais importa sublinhar. A festa pertence às pessoas. A memória da festa pertence também à comunidade. Por isso, preservar fotografias, programas, cartazes e outras publicações não é apenas conservar papel, imagens ou objetos. É preservar nomes, rostos, lugares, práticas, emoções e modos de viver. É garantir que uma criança de hoje poderá, daqui a muitos anos, descobrir como os seus avós viviam as festas. É permitir a um investigador compreender a evolução de uma tradição. É possibilitar a alguém que regressa a Viana depois de muitos anos reconhecer, num documento antigo, uma cidade que julgava esquecida. Há, neste gesto, uma responsabilidade cultural que não deve ser subestimada.


    Vivemos num tempo em que quase tudo é fotografado e imediatamente partilhado. A quantidade de imagens produzidas durante as festas é incomparavelmente maior do que em qualquer outra época. Mas produzir memória não é o mesmo que preservar memória. A fotografia que fica esquecida num dispositivo pode desaparecer. A publicação que não é identificada pode perder-se. O testemunho de quem viveu uma determinada época pode deixar de ser transmitido. Por isso, a preservação da memória local exige atenção, seleção, organização e, sobretudo, uma relação próxima com a comunidade. 

    Talvez seja aqui que a biblioteca possa desempenhar uma das suas funções mais bonitas: convencer-nos de que aquilo que hoje parece banal poderá ser, amanhã, um documento precioso. Uma fotografia de uma família junto ao cortejo. Um programa guardado numa gaveta. Um cartaz que alguém decidiu não deitar fora. Uma pequena publicação produzida por uma associação. Um testemunho escrito por quem
Programa - 1976
 participou numa tradição. São fragmentos. Mas é de fragmentos que a memória coletiva também se constrói. E há uma particular responsabilidade quando falamos de património cultural imaterial. Os usos e costumes não sobrevivem apenas porque são registados. Sobrevivem porque continuam a ser vividos, partilhados e reconhecidos pelas comunidades. A documentação ajuda-nos a não esquecer. A comunidade ajuda-nos a manter vivo.

    É nesta relação entre memória e presente que as Festas d’Agonia ganham uma dimensão que ultrapassa o calendário festivo. Todos os anos, Viana celebra o que recebeu das gerações anteriores, mas celebra também aquilo que está a transmitir às gerações seguintes. Talvez por isso uma biblioteca possa ser vista como uma das casas discretas da festa.


    Quando as ruas se silenciam, quando as bandeiras são retiradas e quando os últimos sons da celebração se afastam, permanecem as histórias. Permanecem as imagens. Permanecem os documentos. Permanece a possibilidade de voltar a olhar para tudo aquilo que aconteceu. E é nesse momento que a biblioteca volta a entrar em cena. Não para substituir a festa, nem para a transformar em objeto distante, mas para ajudar a compreendê-la.
Programa -1955



    Guardar a festa para além da festa é, afinal, uma forma de cuidar da cidade. Porque cuidar do
património não é apenas proteger monumentos ou objetos antigos. É também cuidar das histórias que dão significado aos lugares, dos costumes que ajudam uma comunidade a reconhecer-se e das memórias que ligam diferentes gerações.

    Em Viana do Castelo, as Festas d’Agonia são uma dessas grandes expressões de identidade. Todos os anos voltam. Mas cada ano acrescenta uma nova página à história.


    E enquanto houver quem celebre, quem conte, quem fotografe, quem guarde e quem preserve, essa história continuará a ser escrita. Na rua, nas casas, na memória das pessoas. E também na biblioteca.

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