quinta-feira, 30 de julho de 2026

As bibliotecas locais enquanto fator de desenvolvimento cultural

            As bibliotecas localizadas fora da sede do concelho constituem um investimento essencial na educação, cultura e coesão social. Num tempo de rápidas transformações sociais e tecnológicas, o acesso à informação e à cultura continua a ser um direito fundamental que deve ser assegurado a todos, independentemente da sua localização geográfica. Neste contexto, a criação de bibliotecas nas localidades onde se justifique, e aqui devemos atender ao critério de população (densidade e dimensão demográfica que sustentem o investimento), promovida pelas juntas de freguesia com o apoio da biblioteca pública do município, revela-se uma medida de enorme importância, com impactos profundos no desenvolvimento individual e coletivo das comunidades locais.


    Muitas freguesias, sobretudo as mais afastadas dos centros urbanos e do interior, enfrentam desafios estruturais que limitam o acesso dos seus habitantes à informação, à leitura e à formação contínua. A distância das cidades, a escassez de oportunidades económicas e, por vezes, a falta de infraestruturas digitais contribuem para uma sensação de isolamento e afastamento do mundo atual. As bibliotecas locais, ao contrário, aproximam as pessoas do conhecimento. Investir nestas bibliotecas é investir no futuro, é fortalecer a coesão social, reduzir desigualdades e garantir que cada cidadão, independentemente do lugar onde vive, possa usufruir plenamente do direito fundamental ao saber e à cultura. 

    Através de uma rede coordenada com a biblioteca municipal, num sistema concelhio articulado, estas pequenas bibliotecas passam a dispor de recursos atualizados, catálogos diversificados e apoio técnico especializado. Isto significa que um habitante de uma localidade pode aceder aos mesmos livros, serviços e programas culturais que alguém que viva no centro urbano. 

    As bibliotecas não são apenas depósitos de livros, são espaços vivos de aprendizagem informal, onde se promove a leitura, o pensamento crítico e o gosto pelo saber. Crianças em idade escolar podem ali encontrar apoio ao estudo, jovens podem descobrir novas áreas de interesse, adultos podem explorar temas atuais ou desenvolver competências, e os mais velhos podem manter-se intelectualmente ativos. Ao disponibilizar um espaço acolhedor, com acesso gratuito à internet, sessões de leitura, workshops, clubes de leitura ou formações básicas, a biblioteca torna-se num motor de educação ao longo da vida, adaptando-se às necessidades da sua comunidade. A biblioteca é também um ponto de encontro e de partilha, capaz de dinamizar a vida cultural da aldeia. Ao receber exposições, apresentações de livros, sessões de cinema, debates e eventos intergeracionais, contribui para quebrar o isolamento social e reforçar os laços comunitários. Nestes espaços cria-se um sentido de pertença, onde a cultura local pode ser preservada, divulgada e valorizada. Além disso, a promoção de autores locais, a recolha de tradições orais ou a promoção da cultura local são formas de manter viva a identidade das aldeias, muitas vezes esquecida nos grandes centros urbanos. 

    A colaboração entre as juntas de freguesia e a biblioteca pública do município é essencial para garantir a sustentabilidade e a qualidade destes serviços. A biblioteca central pode apoiar na formação dos técnicos locais, na gestão dos fundos documentais, no empréstimo de livros e equipamentos, e na implementação de boas práticas de funcionamento. Este modelo de cooperação permite otimizar recursos, evitar duplicações e assegurar que mesmo as pequenas bibliotecas das freguesias funcionem com padrões de qualidade e eficácia, oferecendo um serviço público digno e relevante. Investir na criação e manutenção de bibliotecas nas freguesias é investir no futuro. É garantir que ninguém fica para trás no acesso à educação, à cultura e à informação. É criar comunidades mais fortes, mais informadas e mais participativas. Num país onde muitas vezes o interior é esquecido, estas bibliotecas representam pontes de oportunidade, inclusão e esperança. Cabe às instituições locais, juntas de freguesia, municípios, bibliotecas públicas e cidadãos, apostar neste caminho, porque uma comunidade com uma biblioteca é uma comunidade com futuro.

 In “Correio do Minho” (13. 11. 2025)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

As bibliotecas públicas e a leitura digital gratuita



        Numa era marcada pela crescente digitalização dos hábitos culturais e pelo fácil acesso à informação, as bibliotecas públicas portuguesas reinventam-se para continuar a cumprir a sua missão, ou seja, a de promover o acesso democrático à leitura, à cultura e ao conhecimento. Um dos exemplos mais recentes e significativos desta transformação é o lançamento da plataforma BiblioLED – um serviço que permite o empréstimo gratuito de livros e audiolivros em formato digital, acessível a todos os utilizadores das bibliotecas municipais aderentes.


    A BiblioLED é uma iniciativa promovida pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), no âmbito da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP) e financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O projeto foi oficialmente lançado em janeiro de 2025, com o objetivo de responder às novas necessidades dos leitores e facilitar o acesso à leitura digital.

    A plataforma combina uma coleção nacional, disponível para todos os utilizadores, com coleções regionais específicas, geridas pelas redes intermunicipais ou metropolitanas de bibliotecas. Esta abordagem permite adaptar os conteúdos às características e interesses das comunidades locais, ao mesmo tempo que se garante um acervo diversificado e abrangente, que inclui romance, ensaio, poesia, literatura infantojuvenil, e audiolivros em português.

    A adesão ao serviço é gratuita, mas exige que o utilizador esteja inscrito numa biblioteca municipal que faça parte da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP), tenha um endereço de email ativo, um equipamento de leitura compatível, como um computador, tablet, telemóvel (smartphone) ou leitor de livros digitais (e-reader), e acesso à internet para descarregar os conteúdos digitais (que, posteriormente, podem ser lidos ou ouvidos sem ligação à internet). Uma vez inscrito, o leitor pode registar-se na plataforma e requisitar até dois livros digitais e um audiolivro em simultâneo, com um prazo de empréstimo de 21 dias. As obras emprestadas são descarregadas com proteção DRM- Digital Rights Management, tecnologia que garante a sua devolução automática no final do prazo.

    Entre as várias bibliotecas que integram este serviço está a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, através da Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Alto Minho (RIBAM). Assim, os munícipes têm acesso direto à BiblioLED, podendo usufruir de um vasto catálogo de leitura digital em português, sem custos e a partir de qualquer lugar. Trata-se de um passo importante na consolidação da leitura em ambiente digital e na promoção da literacia, especialmente junto das gerações mais jovens, habituadas a consumir conteúdos em linha.

    Este novo modelo de biblioteca digital pública reforça o papel das bibliotecas enquanto serviços de proximidade, adaptando-se aos desafios do século XXI, sem perder de vista os princípios fundamentais da inclusão, da educação e da cidadania. Com a BiblioLED, a leitura torna-se mais acessível, mais flexível e mais presente no quotidiano de todos.

    A Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, ao disponibilizar este serviço, reforça o seu compromisso com a inovação, a democratização do saber e o incentivo aos hábitos de leitura. Com esta solução, amplia o seu alcance e responde às novas exigências dos leitores contemporâneos, proporcionando o acesso gratuito a livros e audiolivros. Esta iniciativa contribui para eliminar barreiras económicas e geográficas, garantindo que qualquer pessoa, independentemente da sua localização ou condição social, possa usufruir de uma oferta diversificada e de qualidade. A BiblioLED afirma-se, assim, como uma importante ferramenta de inclusão e modernização, aproximando os cidadãos dos livros e do conhecimento e contribuindo para a formação de uma comunidade mais informada, crítica e culturalmente ativa.


In “Correio do Minho” (16. 10. 2025)



terça-feira, 28 de julho de 2026

Há mais de cem anos nascia a revista "Lusa"


            A 15 de março de 1917 surgiu, em Viana do Castelo, o primeiro número de uma interessante e importante publicação literária e cultural intitulada Lusa, por iniciativa do ilustre médico e professor vianense Cláudio Basto, membro da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia. Assumindo-se como uma revista quinzenal ilustrada de investigações regionais, sciências e letras (etnografia, filologia, arqueologia, história, crítica, literatura, etc.), apresenta-se até ao n.º 25 (15 março 1918) como fôlha quinzenal de letras e sciências, sendo dirigida e editada por Cláudio Basto, e, a partir de julho de 1919 (n.º 47), coadjuvado na direção pelo médico Pedro Vitorino (da Sociedade Portuguesa de Estudos Históricos). A Lusa manteve-se em publicação até 1924 (n.ºs 77/82) reunindo ao longo das suas páginas um conjunto de importantes colaborações.

    Fixando a sua redação e administração na rua de S. Bento, n.º 41 (até junho de 1917), passa, depois, para a Av. de Camões, n.º 16 (até dezembro de 1929), e, posteriormente, para o Largo de S. Bento.

    Composta e impressa inicialmente na tipografia A Plebe, na rua dos Manjovos, em Viana do Castelo, a partir dos n.ºs 41/42 (nov. / dez. 1919) é a tipografia Minerva, em Famalicão, que executa esse trabalho.

    A totalidade da revista compreende 4 volumes, impressos a duas colunas, em formato de 25,5 x 17 cm. O primeiro volume reúne os n.ºs 1 a 23/24, editados entre 15 de março de 1917 e 1 de março de 1918, num total de 192 páginas; o segundo volume, os n.ºs 25 a 45/46, de 15 de março de 1918, a 1 de fevereiro de 1919, com 176 páginas; o terceiro volume, os n.ºs 47 a 56, de 6 de julho de 1919, a abril / dezembro de 1920, com 152 páginas; e o quarto volume, os n.ºs 57/60 a 77/82, de janeiro / dezembro de 1921, a julho / dezembro de 1924, com 156 páginas.

    Publicada nos dias 1 e 15 de cada mês, a assinatura de cada volume começa por custar 2$50, e o número avulso (de 8 páginas) $07 (70 rs.). No entanto, a partir de 1921, as dificuldades com a edição começam a aumentar, pelo que, nesse ano, publica-se uma vez (correspondendo aos n.ºs 57 a 60). Em 1922 e 1923, sai também uma única vez (n.ºs 61 a 70), e, em 1924, último ano de publicação, sai duas vezes (n.ºs 71 a 76 e 77 a 82).

    A Lusa reúne um conjunto de trabalhos de grande interesse para a região, sendo muito procurada devido à qualidade dos temas tratados, sobretudo no âmbito da literatura, da linguística, do teatro, da etnografia, da etnologia, da antropologia, da heráldica, da arqueologia e da música. Nela encontramos a importante colaboração de Cláudio Basto, especialmente no campo da linguística, de Pedro Vitorino, no campo da arqueologia e de José Leite de Vasconcelos, na área da etnografia.

    Constituindo atualmente uma publicação muito pouco vulgar, devido à sua raridade, os quatro volumes da Lusa, graficamente atraentes, contêm fotografias da época e a capa, a partir do segundo volume, é da autoria de Abel Cardoso. Nela incluem-se trabalhos assinados por A. Aurélio da Costa Ferreira, A. C. Pires de Lima, Afonso Lopes Vieira, Aires de Sá, Alberto Pimentel, Alberto Saavedra, Albino Forjaz Sampaio, Alfredo Inocêncio, Álvaro Neves, Ana de Castro Osório, António Baião, António Barradas, António Correia de Oliveira, António Ferreira, António Vitorino Ribeiro, Augusto Pinto, Belisário Pimenta, Cândido de Figueiredo, Carlos de Passos, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Cláudio Basto, Delfim Guimarães, Emanuel Ribeiro, Ernesto Sardinha, F. Alves Pereira, Ferreira Soares, Gomes de Brito, Henrique Lopes de Mendonça, J. J. Nunes, J. Leite de Vasconcelos, José Maria Rodrigues, João da Rocha, João da Silva Correia, José Caldas, Kol d’Alvarenga, L. de Figueiredo da Guerra, Manuel de Moura, Manuel de Sousa Pinto, Maria da Conceição Portugal Dias, M. Cardoso Marta, Óscar Pratt, Pedro de Azevedo, Pedro Vitorino, Raimundo Esteves, Raul Brandão, Ribeiro Cristino, Sebastião Rodolfo Dalgado, Teófilo Braga, Tito de Sousa Larcher, Vitor Ribeiro, Xavier da Cunha e Wenceslau de Moraes.


    Mas, afinal, quem foi este vianense de nome Cláudio Basto que esteve na origem desta publicação?

    De seu nome completo, Cláudio Filipe de Oliveira Basto, nasceu em Viana do Castelo a 13 de agosto de 1886 e faleceu no Porto a 2 de maio de 1945.

    Em Viana do Castelo frequentou o ensino primário e concluiu o curso geral dos liceus. Em Braga frequentou o curso complementar e no Porto, na Faculdade de Medicina, em 1911, fez o Curso Médico-Cirúrgico. Dedicou-se à docência no Liceu de Viana, onde lecionou até 1927 várias disciplinas de letras e ciências. Durante este período, foi vogal da Comissão Administrativa (1911 a 1913) e Inspetor interino do círculo escolar de Viana (1919). Lecionou na Escola de Ensino Normal (1916 a 1918), na Escola Primária Superior João da Rocha (desde 1919) e em Escolas Industriais (1916 a 1944). Casou em 1917, em Lisboa, com a sua colega de curso Hermínia Costa de Oliveira Basto, com quem teve um filho. Quando, em 1944, adoeceu era professor efetivo da Escola Industrial de Faria Guimarães, no Porto, afastando-se a partir dessa data da sua atividade profissional. Paralelamente à atividade docente, exerceu durante alguns anos funções de médico-escolar (1911 a 1926).

    Desenvolveu uma intensa atividade como escritor, etnógrafo e filólogo. Destacou-se no campo da etnografia portuguesa, dedicando uma parte significativa da sua obra ao estudo da cultura tradicional do Alto Minho.

    Os seus estudos etnográficos incidiram sobre as temáticas relacionadas com as expressões e tradições orais, com destaque para a linguagem e costumes da medicina popular, o traje e o teatro, contribuindo de forma significativa para o estudo do património etnográfico local e regional, sendo a revista Lusa um dos mais expressivos exemplos. Fundou ainda as publicações Limia e a revista Nova Silva (com Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão e Álvaro Pinto), tendo sido também colaborador da imprensa local, nomeadamente em O Povo (1908-1910), O Minho (1918) e Gazeta de Viana (1911-1916), para além do mensário portuense O Tripeiro (1930-1931) e da revista Lusitana. Dirigiu igualmente a revista Portucale, por convite de José Leite de Vasconcelos, contribuindo com diversos trabalhos de âmbito etnográfico.

    Cláudio Basto foi, ainda, autor de uma importante obra, da qual se destacam os trabalhos relativos à linguagem popular, nomeadamente Tradições Populares, Falas e Tradições de Viana (1910), Nótulas ao “Novo Dicionário” (1913-1916), “Saudade” em Português e Galego (1914). Com Carolina Michaëlis e José Leite de Vasconcelos colaborou na obra No Seio da Virgem-Mãe (1922), e foi autor de A Linguagem dos gestos em Portugal - esboço etnográfico (1938). Da sua obra etnográfica, no âmbito da temática da literatura oral, dedicou-se à recolha do cancioneiro português em Flores de Portugal (1926) e aos estudos sobre crenças e superstições em Treze à Mesa (1914) e Comparações Tradicionais Portuguesas (1924). Em 1930 publicou a sua obra de referência Traje à Vianesa, que tinha iniciado em 1923 em ensaio da coleção Diário de Notícias, intitulado Do Traje “à vianesa” em geral e do traje de Afife em especial – notas regionais, caracterizando os estudos relativos ao traje popular, ou “fato à lavradeira”, usado nas festas e romarias das freguesias limítrofes de Viana do Castelo, nomeadamente em Afife, Carreço, Areosa, Meadela, Santa Marta e Perre. Em 1939 publicou Silva Etnográfica, onde reuniu uma série de artigos sobre etnografia minhota dispersos nas publicações periódicas em que colaborou. Colaborou, ainda, em diversas miscelâneas das quais se destaca a dedicada a J. Leite de Vasconcelos, em 1934, e foi igualmente autor das bio-bibliografias dos etnógrafos A. Tomás Pires, Teófilo de Braga, Gonçalves Viana e Mário Barreto.

    Em 1949, em sua homenagem, foi publicado no Porto o volume Miscelânea de Estudos à Memória de Cláudio Basto, organizado por Hermínia Basto. Atualmente, junto à Escola Secundária de Santa Maria Maior (antigo Liceu), apesar de não ser o edifício onde lecionou, encontra-se o busto de Cláudio Basto, esculpido por Manuel Rocha e colocado por ocasião do centenário do seu nascimento.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

As Bibliotecas e a partilha de livros em formatos alternativos

 

        Com a finalidade de facilitar o acesso a recursos em formatos alternativos como o braille impresso e digital, áudio e textos digitais, destinados a pessoas com deficiência visual, a Biblioteca Nacional lançou em 2018 uma plataforma online designada de Repositório Nacional de Objetos em Formatos Alternativos (RNOFA).

    Aberta à participação de outras entidades que também produzem documentos em formatos alternativos, são várias as bibliotecas e outras instituições públicas ou privadas que integram o RNOFA, entre as quais a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo que assinou o acordo de adesão em 25 de julho de 2018. Este sistema online partilhado assume a função de catálogo coletivo, congregando todos os recursos disponíveis no país, e a de repositório para as bibliotecas e instituições que não possuem meios para colocarem em rede os seus recursos digitais. Assim, enquanto catálogo coletivo, o RNOFA recebe ou recolhe metadados que identificam, descrevem e dão acesso aos recursos em formatos alternativos e, enquanto repositório armazena os recursos em formato digital, sempre que as bibliotecas e instituições cooperantes o solicitem.

    A pesquisa no RNOFA é disponibilizada a qualquer pessoa através da plataforma Web existente. No entanto, o acesso para requisição ou download dos recursos é limitado às pessoas com deficiência visual, mediante inscrição e autenticação, por forma a respeitar a legalidade da reprodução que é oferecida em formato alternativo das obras protegidas pelo direito de autor, mas destinadas a este tipo de utilizadores de acordo com a alínea i) do art.º 75º e o art.º 80º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos. Assim, os utilizadores inscritos nesta plataforma, pessoas com deficiência visual que tenham feito prova dessa condição, podem fazer reserva de livros em braille, que são enviados para a sua residência por correio, ou fazer transferência das obras digitais que pretendem para os seus equipamentos (computador, smartphone e leitor de mp3). Estas obras podem assumir diferentes formatos digitais, nomeadamente audiolivros (registo de som), os arquivos digitais RTF (sincroniza áudio e texto) e o formato ePub3 (que permite sincronizar num só ficheiro texto, áudio e imagem). Trata-se, por isso, de uma plataforma extremamente útil e funcional que permite às pessoas cegas ou com visão reduzida, aceder a recursos informativos existentes em todas as bibliotecas cooperantes de uma forma fácil e rápida.

    Reduzir as barreiras de acesso à leitura das pessoas com deficiência visual é o grande objetivo do RNOFA que agora reúne os serviços da área da leitura especial das bibliotecas e instituições portuguesas participantes em benefício das pessoas com deficiência visual, das suas famílias e dos técnicos que com elas trabalham, nomeadamente os professores.

    No plano da cooperação internacional, os dados dos recursos disponibilizados no RNOFA serão, por sua vez, canalizados para o portal Accessible Books Consortium (ABC), lançado em 2014, na sequência da aprovação do Tratado de Marraquexe, liderado pela World Intellectual Property Organization (WIPO), com objetivos semelhantes aos do RNOFA, mas à escala mundial.

    Refira-se, por fim, que o Repositório de Objetos em Formatos Alternativos foi desenvolvido e é mantido pela Biblioteca Nacional de Portugal com o apoio da Unidade ACESSO da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.



In “Correio do Minho” (6. 02. 2020)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Férias com livros na bagagem: porque a leitura não tira férias

 


              
Há momentos do ano em que naturalmente pensamos em abrandar, mudar de ritmo e procurar novas experiências. O verão é, por excelência, esse tempo de pausa, de viagens, de encontros, de passeios e de momentos de maior tranquilidade. Mas, mesmo quando a rotina muda, há uma companhia que pode continuar sempre presente: um bom livro.

            A leitura em tempo de férias assume uma importância especial. Longe dos horários mais exigentes e das obrigações diárias, muitas pessoas encontram no verão a oportunidade de recuperar aquele prazer de ler que, durante o resto do ano, nem sempre conseguem concretizar. Ler na praia, à sombra de uma árvore no campo, numa varanda tranquila ou durante uma viagem é uma forma de aproveitar o tempo com qualidade, estimulando a imaginação, enriquecendo o conhecimento e proporcionando momentos de verdadeiro bem-estar.

            Um livro é uma companhia singular: não exige pressa, acompanha o nosso ritmo e permite-nos viajar sem necessidade de grandes preparativos. Através das páginas de um romance, de uma biografia, de uma obra histórica ou de um livro de divulgação científica, podemos conhecer outros lugares, outras épocas e outras formas de olhar o mundo. A leitura é, por isso, também uma forma de viajar.

Ilustração de Nuno Saraiva
            E para que ninguém fique sem essa companhia durante o verão, a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo mantém o seu horário habitual de funcionamento, continuando disponível para servir toda a comunidade. Com uma equipa de profissionais especializados, sempre preparados para orientar, aconselhar e ajudar cada leitor a encontrar o livro certo, a biblioteca permanece como um espaço aberto ao conhecimento, à cultura e ao encontro.

            Porque uma biblioteca não é apenas um lugar onde se guardam livros. É um espaço vivo, onde diariamente circulam ideias, histórias e pessoas. É um serviço público essencial que acompanha os cidadãos em todas as épocas do ano, incluindo o período de férias.

            E se o verão também é tempo de passeios e descobertas, a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo apresenta uma excelente sugestão cultural para incluir no roteiro: a partir de 25 de julho e até 31 de dezembro estará patente a exposição “Cancelado desde 69”, obra gráfica de Nuno Saraiva.

            Esta mostra reúne parte da obra gráfica de Nuno Saraiva, com trabalhos publicados em livros, revistas e jornais, revelando o percurso de um dos nomes mais reconhecidos do desenho, da ilustração e da sátira gráfica em Portugal. É uma oportunidade para conhecer uma linguagem artística marcada pelo humor, pela observação crítica da sociedade e pela capacidade de transformar o desenho numa forma poderosa de comunicação.

            Num dia de passeio pela cidade, uma visita à Biblioteca Municipal pode ser uma paragem enriquecedora: descobrir uma exposição, conhecer novas propostas culturais ou simplesmente escolher alguns livros para levar na bagagem.

            Porque a biblioteca está sempre em movimento e continua a renovar o seu acervo com novidades e “livros fresquinhos” para os leitores. São novas histórias, novos autores e novos conhecimentos à espera de serem descobertos.

            Neste verão, entre viagens, descanso e momentos de lazer, vale a pena reservar espaço para um livro. Afinal, há companhias que tornam qualquer lugar melhor — e a leitura é certamente uma delas.

            Boas férias… e boas leituras!


In "Correio do Minho" (23.07.2026)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O património das bibliotecas e o primeiro livro impresso em Viana do Castelo

 

Muitas bibliotecas possuem nos seus acervos obras raras e de grande valor patrimonial que constituem verdadeiros atrativos e despertam as mais variadas atenções. Acresce a este valor o facto de serem, por vezes, obras relacionadas com os fundos locais e, por isso, intimamente ligadas à comunidade porque a ela dizem respeito. Isto, para falar de uma raridade bibliográfica intitulada “Vida de Dom Frei Bertolamev dos Martyres da Ordem dos Pregadores Arcebispo e Senhor de Braga Primas das Espanhas...”, da autoria de Frei Luís de Sousa, cuja primeira edição possui a particularidade de ter sido impressa em Viana, em 1619, à custa da Câmara. Isto mesmo pode ler-se no frontispício da obra: “Impressa na notavel Vila de Viana à conta da mesma Vila por Niculao Carvalho Impressor de S. Mgde. Anno 1619”.

Frontispício da edição princeps
    Dada a inexistência, nesta data, de tipografia em Viana «lembremos que, para a primeira edição da Vida de Dom Frei Bartolomeu, não veio só o impressor com os seus prelos, mas o próprio autor se deslocou expressamente do Convento de S. Domingos de Benfica para assistir aos trabalhos tipográficos e oferecer pessoalmente a obra aos vianenses», como salienta Fr. Raúl Rolo (In “Jornadas Bartolomeanas”. Viana do Castelo: Câmara Municipal, 1990, p. 122).

Esta obra é uma edição rara e de inquestionável valor bibliográfico. O seu autor é o escritor português de seu nome, no século, Manuel de Sousa Coutinho, 4º filho de Lopo de Sousa Coutinho, descendente do Conde de Marialva, nascido em Santarém por 1555 e falecido no Convento em Benfica, em Lisboa, em maio de 1632, que ficou conhecido na literatura portuguesa por Frei Luís de Sousa, nome que tomou ao professar na Ordem de S. Domingos e que adquiriu fama devido ao facto de Almeida Garrett o ter dado como título ao drama composto em 1843. 

Com a entrada de Manuel de Sousa Coutinho no convento, aos 58 anos de idade, nasce, sob o nome de Frei Luís de Sousa, o grande escritor que será encarregado pelos seus superiores de redigir, aproveitando a investigação e as notas deixadas por Frei Luís de Cacegas, anterior cronista da Ordem (falecido em 1616), a “História de São Domingos” e a “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires”. Por volta de 1617, Frei Luís de Sousa começa a redigir a “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires” por diligência da Câmara da então Vila de Viana que pretendia homenagear a memória do dominicano que ali fundara um convento, morrera e fora sepultado. Concluída em menos de dois anos, a obra veio a ser impressa em 1619. Frei Luís de Sousa em prefácio assinado no convento de S. Domingos de Viana, em 7 de maio de 1619, oferece a sua obra “A CAMARA E GOVERNO / DA NOTAVEL VILLA DE VIANA / E A TODA A MAIS NOBREZA / & povo della”. De formato in-4º, esta edição princeps surge com portada alegórica gravada pelo artista de origem flamenga Juan Schorquens, que ganhou fama nos inícios do século XVII.

O sucesso deste primeiro livro editado em Viana é-nos revelado pelo próprio autor em 1625, ao dizer que «foi tão bem visto, pelos merecimentos do Santo, que dentro de seis anos se gastou a impressão, e é desejada segunda».

De inegável valor patrimonial, um exemplar da primeira edição desta obra, que retrata a vida do santo arcebispo de Braga que escolheu a cidade de Viana para aqui construir o Convento de Santa Cruz (S. Domingos) e aí passar o resto da sua vida, faz parte do fundo bibliográfico da Biblioteca Pública Municipal e, por isso, é motivo de orgulho para todos nós.

 

In “Correio do Minho” (10. novembro. 2016)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

As Bibliotecas, Maria José Moura e a Rede de Leitura Pública

 

Nota introdutória

A propósito do Prémio Maria José Moura, promovido pela Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação (BAD), pareceu-me oportuno republicar este artigo que escrevi em novembro de 2018, por ocasião do falecimento da Dra. Maria José Moura. Passados estes anos, as palavras então escritas mantêm toda a sua atualidade. Mais do que uma homenagem a uma personalidade ímpar, constituem um testemunho de gratidão para com quem teve um papel absolutamente decisivo na criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas e na transformação da leitura pública em Portugal. É também uma forma de recordar o seu legado e de reconhecer a influência duradoura que continua a exercer sobre todos aqueles que trabalham e acreditam na missão das bibliotecas públicas.

*   *   *

            Diversos órgãos de comunicação social, várias organizações ligadas à problemática das bibliotecas e do livro, nacionais e estrangeiras, e até o Presidente da República Portuguesa lamentaram a morte de Maria José Moura (1937-2018), ocorrida no passado dia 2 de novembro. Conhecida como sendo a “criadora da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas”, por ter tido um papel decisivo no desenvolvimento da Leitura Pública no Portugal democrático, a Dra. Maria José Moura foi a coordenadora do grupo de trabalho que, em 1986, definiu os pressupostos que serviram de base à criação da Rede de Bibliotecas Municipais. Criado por despacho (23/1986) da então Secretária de Estado da Cultura, Maria Teresa Pinto Basto Patrício Gouveia, este grupo de trabalho, tinha como missão definir as bases de uma política nacional de leitura pública. Dele faziam igualmente parte Maria Teresa Calçada, Pedro Vieira de Almeida e Joaquim Macedo Portilheiro, que, nesse mesmo ano, produziram um relatório sobre as bibliotecas públicas em Portugal intitulado “leitura Pública: rede de bibliotecas municipais”.

Maria José Moura
Numa entrevista concedida posteriormente, Maria José Moura considerou que era um verdadeiro “escândalo” que, dez anos depois do 25 de Abril, apenas existisse “meia dúzia de bibliotecas das câmaras com as estantes fechadas. Tudo poeirento, triste, sem luz. Era uma coisa sem vida”.

Deste relatório surgiram as principais linhas orientadoras para o estabelecimento das bases de uma política nacional de leitura pública, defendendo-se que esta deveria assentar na “implantação e funcionamento regular e eficaz de uma rede de bibliotecas municipais, assim como no desenvolvimento de estruturas que, a nível central e local, mais directamente as possam apoiar”. Estas bibliotecas públicas/municipais deveriam ser dotadas de coleções enciclopédicas, em diversos suportes, com livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário, secções distintas para crianças e adultos e gestão profissionalizada, novidades que, aos poucos, foram sendo concretizadas nas bibliotecas que surgiram nas sedes dos concelhos por todo o país. 

Podemos dizer que, neste campo, se operou uma verdadeira “revolução silenciosa”, como escreveu Maria José Moura no último trabalho que assinou (2016), pois Portugal, de 1987 até aos dias de hoje, assistiu à implantação progressiva de bibliotecas públicas, em edifícios novos ou reconvertidos, que têm vindo a desenvolver um trabalho extremamente relevante, assegurando às populações, de forma efetiva, o direito à cultura. 

Maria José Moura, que ficará para nós como um exemplo de perseverança e de constante empenho pela causa das bibliotecas, era licenciada em Ciências Históricas e Filosóficas e possuía o curso de Bibliotecário e Arquivista pela Universidade de Coimbra. Exerceu as funções de diretora dos Serviços de Documentação da Universidade de Lisboa até 1987, e a partir desse ano, dirigiu o Programa da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas até 2006. Foi, simultaneamente, coordenadora-geral do Projeto do Inventário do Património Cultural Móvel, delegada nacional do Programa Geral de Informação da UNESCO, vice-presidente do Conselho Superior de Bibliotecas, responsável pelo National Focal Point- Telematic for Libraries Program, membro do Information Society Forum (Bruxelas), e integrou a Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura. Foi uma das fundadoras da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD), da qual foi presidente da Direção e da Mesa da Assembleia Geral. Integrou igualmente os comités permanentes da Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias, designadamente os de Bibliotecas Públicas e de Edifícios e Equipamentos Bibliotecários. Foi condecorada pelo Estado Português com a Ordem de Mérito e, em 1998, recebeu o Prémio Internacional do Livro, em Amesterdão, por proposta da IFLA.

Convivi perto de trinta anos com a Dra. Maria José Moura, de quem guardo a mais grata recordação, não só pela excelente profissional que sempre foi, mas também pela amizade com que sempre nos distinguiu. Devo-lhe, entre outros aspetos, o honroso convite para integrar um grupo de bibliotecários portugueses que visitou, em 1995, diversas bibliotecas públicas da região de Marselha (França), quando exercia as funções de Diretora de Serviços de Leitura Pública do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro e eu iniciava a minha carreira nas bibliotecas públicas.

Fica minha profunda gratidão pelo enorme legado que deixou à causa das bibliotecas e da leitura pública em Portugal.

 

In “Correio do Minho” (15. novembro. 2018)

terça-feira, 7 de julho de 2026

O que podemos e o que não devemos fazer numa biblioteca pública

 

No mundo atual, fruto da introdução das novas tecnologias de informação e comunicação, as bibliotecas passaram a desenvolver grande parte dos seus serviços de forma automatizada, permitindo o acesso à distância a muitos dos recursos  e serviços disponibilizados pelas bibliotecas, como os serviços de referência, os documentos digitalizados, os catálogos e as bases de dados, entre muitos outros. A informação deixou de estar exclusivamente associada ao livro para estar presente em diversos suportes. Os novos recursos resultantes da automatização tornaram a biblioteca um lugar diferente de um depósito de livros como durante muito tempo foi entendida. O conceito de biblioteca mudou. A biblioteca do passado já não existe! No entanto, estas mudanças são também o resultado da evolução havida por parte de quem medeia todo este processo entre a busca da informação e os seus utilizadores, ou seja, o bibliotecário ou o profissional da informação, como também se denomina em resultado das transformações surgidas.

À medida que os sistemas informatizados foram avançando nas bibliotecas as relações entre os bibliotecários e os utilizadores foram-se modificando, dando origem a novas formas de mediação, fruto das novas exigências. Em resultado destas mudanças, o bibliotecário assumiu também um novo perfil, o de profissional da informação, deixando de ser um guardião dos livros e um erudito para assumir o papel de interface facilitador de busca e acesso à informação e ao conhecimento.

Outra das alterações verificadas nas atuais bibliotecas com o desenvolvimento tecnológico situa-se ao nível dos suportes da informação. Atualmente, os utilizadores já não passam horas na biblioteca lendo um livro, mas procuram a informação que lhes é útil, independentemente do suporte em que se encontre de acordo com a sua relevância para as suas necessidades. A proliferação de suportes materiais com informação útil para os utilizadores transformou a biblioteca num espaço mais abrangente e diversificado também no que respeita às atividades que promove.

Hoje em dia, as diversas atividades associadas às bibliotecas e por elas dinamizadas tendem a mudar em alguns aspetos. De qualquer forma, atendendo à sua universalidade como entidades culturais, os bibliotecários devem preocupar-se em estar em sintonia com a razão de ser destas entidades de modo a manter a coerência dos pressupostos que estão na sua origem. Tudo o que se realiza na biblioteca deve enquadrar-se no espírito e no conceito que sempre a caracterizaram, enquadrando-se nos seus princípios básicos de divulgação da informação e do conhecimento.

A missão de uma biblioteca pública não se cose à máquina
Temos assistido, um pouco por todo o lado, ao acolhimento por parte de algumas bibliotecas de atividades que nada têm a ver com a promoção do livro e da leitura e que, em muitos casos, até lhes são estranhas, só para atraírem pessoas à biblioteca. Mas, o mais estranho é presenciarmos uma quase aceitação generalizada destas atividades e até de serviços que desvirtuam a própria razão de ser das bibliotecas e só demonstram a incapacidade dos bibliotecários em atrair público/utilizadores e de demonstrar a utilidade dos serviços que promovem. Mesmo que a comunidade onde a biblioteca está inserida possa facilitar a abertura a caminhos mais fáceis e abrangentes, não nos devemos esquecer que para além de espaços de lazer e de entretenimento que também são, estes devem necessariamente assentar numa base cultural, de debate e de construção de conhecimento. Há, neste momento, bibliotecas que desenvolvem serviços com os quais não concordamos porque desvirtuam o espírito para o qual foram criadas e nada têm a ver com os princípios orientadores definidos para as bibliotecas públicas.  E outros, dificilmente se enquadram na sua função social.

Consideramos que os bibliotecários, como responsáveis pela gestão destas entidades precisam de se preocupar, cada vez mais, com o que podem fazer no campo da promoção da leitura e da literacia, e, também, com o que não devem fazer porque não se enquadra no espírito das instituições que dirigem, tornando-as irreconhecíveis quanto à sua função. Aliás, não nos podemos esquecer que as bibliotecas continuam a ser projetadas com estantes!

In “Correio do Minho” (10. dezembro. 2022)

As bibliotecas e as leituras de verão

Durante o verão as pessoas preferem atividades ao ar livre e viajar, o que causa uma redução do número de utilizadores presentes nas bibliotecas embora não signifique necessariamente uma diminuição da leitura. Se é certo que a presença física dos utilizadores diminui, o mesmo não acontece com o número de obras requisitadas para leitura fora de portas da biblioteca. O empréstimo domiciliário justifica de per si o funcionamento da biblioteca e a redução do número de presenças durante este período é um desafio comum.

Ilustração de Paula Delecave
No entanto, há várias estratégias que podem ajudar a atrair mais leitores durante o verão. A leitura ao ar livre pode ser uma aposta muito interessante e que muitas bibliotecas já seguem com a organização de espaços a ela destinados em parques, jardins, piscinas ou até na praia. A presença do livro fora do espaço tradicional da biblioteca e próximo dos locais de lazer frequentados pelas pessoas é uma forma interessante de fazer chegar o livro a quem quiser desfrutar da leitura ao ar livre e pode ajudar a passar o tempo de forma agradável e proveitosa.

As bibliotecas também são ótimos lugares para aproveitar no verão, pois oferecem uma variedade de atividades para todas as idades. Em horários mais convenientes, as bibliotecas poderão realizar eventos culturais do interesse de muitos como a exibição de filmes, palestras sobre temas atuais, apresentações musicais, exposições de arte e outras mostras culturais de forma a constituírem uma oportunidade de enriquecimento cultural. Participar num clube de leitura também poderá ser uma maneira divertida de discutir livros e partilhar opiniões com outros leitores. Muitas bibliotecas oferecem clubes de leitura para diferentes faixas etárias e interesses. Lembram-se aqui, também, a organização de oficinas de escrita criativa, de fotografia, de cinema, atividades que permitem adquirir novos conhecimentos e contactar pessoas com interesses semelhantes. As sessões dirigidas aos mais pequenos como a leitura de histórias em voz alta, os jogos educativos e outras atividades lúdicas são igualmente interessantes para manter as crianças entretidas e motivadas durante as férias escolares. Iniciativas que não só proporcionam entretenimento, mas também são uma excelente maneira de aprender e de aproveitar o verão de forma agradável sobretudo para os mais jovens.

De referir também que as bibliotecas são espaços onde se pode aprender algo de novo e conhecer novas atividades. Muitas possuem programas de voluntariado que permitem compreender novas realidades e participar ajudando no desenvolvimento de certas tarefas, contribuindo para o bem da comunidade. Lembro, a título de exemplo, a digitalização de livros para os serviços de leitura destinados a invisuais e amblíopes e, até, a leitura de textos para a realização de audiolivros. Estes exemplos, são uma maneira excelente de ocupação do tempo livre de forma interessante e enriquecedora, contribuindo para o bem-estar dos outros suprindo, muitas vezes, as necessidades das próprias bibliotecas.

Como sabemos as bibliotecas são verdadeiros centros de lazer, de cultura e de informação. Assim sendo, devem preocupar-se em oferecer informação relevante sobre diferentes locais e regiões do país e do mundo, procuradas como destinos de viagens e de férias. Neste sentido, deve haver a preocupação em atualizar constantemente as coleções de livros de caráter turístico, guias de viagem e roteiros de modo a permitir aos utilizadores que estas publicações possam ser bastante úteis pela informação que lhes podem oferecer e, por isso, interessantes companheiros de viagem.

In "Correio do Minho" (25. julho. 2024)

 

 





sexta-feira, 3 de julho de 2026

Nos bastidores de uma biblioteca

            Quem entra numa biblioteca vê estantes repletas de livros, espaços de leitura e um ambiente tranquilo que convida ao estudo e à descoberta. À primeira vista, trata-se de um espaço simples e silencioso. No entanto, essa aparente simplicidade esconde uma estrutura complexa de trabalho sem a qual nada do que ali existe poderia funcionar de forma eficaz. Surge então uma questão essencial: como é que uma biblioteca consegue garantir organização, acesso à informação e qualidade dos seus serviços sem que se compreenda a dimensão do trabalho que sustenta todo o seu funcionamento?

       

               Uma parte fundamental deste trabalho está relacionada com a gestão dos documentos desde o momento em que são selecionados até à sua disponibilização ao público. O processo inicia-se com uma análise criteriosa das necessidades da comunidade, das lacunas existentes nas coleções e da relevância das novas publicações. A partir desta avaliação, são tomadas decisões de aquisição que não são aleatórias, mas sim orientadas por critérios de qualidade, atualidade e utilidade da informação.

             Quando os documentos chegam à biblioteca, inicia-se um trabalho técnico rigoroso e indispensável. Cada obra é registada, identificada e integrada no sistema da biblioteca através de um número de inventário que assegura o seu controlo e rastreabilidade.

            Segue-se a catalogação, onde cada documento é descrito de forma normalizada, permitindo a sua identificação precisa. Posteriormente, é realizada a classificação, que não se limita a “arrumar livros”, mas sim a organizar o conhecimento de forma estruturada, permitindo que cada obra ocupe um lugar lógico dentro do conjunto da coleção.

            A isto junta-se a indexação por palavras-chave e termos de pesquisa, um trabalho intelectual que representa o conteúdo de cada documento e que determina a sua recuperabilidade. Sem este processo, a informação existiria, mas seria praticamente inacessível para o utilizador.

            Este conjunto de procedimentos demonstra que a organização de uma biblioteca não é um ato mecânico, mas sim um trabalho técnico altamente especializado. É este rigor que permite que qualquer utilizador encontre rapidamente a informação de que necessita, seja através do catálogo em linha ou diretamente nas estantes.

            Toda esta informação é integrada num sistema de gestão de bibliotecas, que permite controlar empréstimos, devoluções, reservas e toda a circulação dos documentos. Mais do que uma ferramenta administrativa, trata-se de um instrumento essencial para garantir a eficiência, a transparência e a acessibilidade dos serviços.

            Mas reduzir o trabalho da biblioteca à gestão de documentos seria ignorar a sua verdadeira dimensão. As equipas asseguram diariamente a atualização das coleções, a organização dos espaços, o apoio direto aos utilizadores e a mediação no acesso à informação. A biblioteca não funciona de forma automática: depende de intervenção humana constante e qualificada.

            As bibliotecas assumem ainda um papel cultural e educativo determinante. São espaços de promoção da leitura, de encontro com autores, de aprendizagem contínua e de participação comunitária. Estas atividades reforçam a sua função como instituições vivas, integradas na sociedade e atentas às necessidades dos seus públicos.

            Com a evolução tecnológica, este trabalho tornou-se ainda mais exigente. A gestão de recursos digitais, bases de dados e plataformas em linha exige atualização permanente e competências técnicas cada vez mais diversificadas. O acesso à informação deixou de estar limitado ao espaço físico, mas isso não reduziu o trabalho da biblioteca, antes o tornou mais complexo.

            A biblioteca desempenha também uma função social essencial, garantindo acesso gratuito à informação, à cultura e a recursos tecnológicos. Para muitos cidadãos, é um espaço de inclusão, de igualdade de oportunidades e de participação ativa na vida comunitária.

            Todas estas responsabilidades, desde a seleção e organização dos documentos até ao apoio ao utilizador e à gestão digital, exigem conhecimento especializado e uma articulação permanente entre diferentes áreas profissionais. É precisamente esta diversidade de competências que permite que a biblioteca funcione como um sistema coerente e eficaz. Perante esta realidade, torna-se evidente que o funcionamento de uma biblioteca depende de uma estrutura complexa de trabalho, sustentada por diferentes competências e níveis de responsabilidade. Talvez por isso a pergunta mais adequada não seja «porque há tanta gente a trabalhar numa biblioteca?», mas antes «como seria possível uma biblioteca cumprir todas as suas funções sem uma equipa diversificada e qualificada?».

In "Correio do Minho" (25. junho. 2026)


As bibliotecas são espaços em constante transformação

 

            Quando, em 1796, foi criada a Real Biblioteca Pública da Corte, considerada a primeira biblioteca pública portuguesa, estava ainda muito distante a ideia de biblioteca que hoje conhecemos. Nascida num contexto iluminista e herdeira do pensamento reformador do tempo pombalino, a biblioteca era sobretudo um espaço de conservação e consulta, reservado a um grupo restrito de eruditos, investigadores e membros das elites culturais. O acesso ao livro e ao conhecimento estava longe de ser entendido como um direito universal. E, durante muitos anos, ler, estudar e investigar eram privilégios de poucos.


            Por muito tempo, as bibliotecas mantiveram essa imagem de lugares silenciosos, quase solenes, marcados pela contenção e pela distância. Eram espaços organizados em função da preservação das coleções e do trabalho intelectual de públicos muito específicos. A evolução foi lenta, acompanhando as mudanças sociais, educativas e culturais do país. A alfabetização limitada da população portuguesa, durante largas décadas, também não favoreceu uma verdadeira democratização do acesso ao livro e à leitura.



            Só nas últimas décadas do século XX se assistiu, verdadeiramente, a uma transformação profunda do conceito de biblioteca pública em Portugal. Um momento decisivo desse processo foi a criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, lançada em 1987, que introduziu um novo modelo de biblioteca: mais moderna, mais aberta e mais próxima das comunidades. Muitas autarquias passaram então a investir na construção ou renovação destes equipamentos culturais, compreendendo que uma biblioteca podia ser muito mais do que um simples espaço de armazenamento de livros.


            Esse novo paradigma alterou profundamente a missão das bibliotecas. O foco deixou de estar apenas na organização e preservação dos documentos impressos para passar a centrar-se também nas pessoas e nas comunidades. A biblioteca pública começou a afirmar-se como espaço de acesso livre à informação, ao conhecimento, à cultura e à participação cívica. Tornou-se um serviço público essencial, aberto a todos, independentemente da idade, da condição social ou do nível de escolaridade.


            Hoje, as bibliotecas são espaços multifuncionais e dinâmicos. Nelas convivem livros, jornais e revistas com computadores, acesso à internet, recursos digitais e novas tecnologias. Acolhem atividades para crianças, sessões da hora do conto, clubes de leitura, encontros com escritores, exposições, ações de formação, debates ou apresentações de livros. Em muitas localidades, a biblioteca tornou-se um dos principais centros de vida cultural da comunidade.


            Mas talvez a maior transformação tenha ocorrido na forma como estes espaços passaram a ser vividos. A biblioteca deixou de ser apenas um lugar de silêncio obrigatório para se tornar também um lugar de encontro, de convívio e de partilha. Um espaço intergeracional, onde diferentes públicos encontram oportunidades de aprendizagem, lazer e descoberta. Um espaço onde se pode estudar, trabalhar, conversar, participar numa atividade cultural ou simplesmente permanecer.


            Entre os seus eixos fundamentais continua, naturalmente, a estar a promoção do livro e da leitura. Porque ler continua a ser um instrumento essencial de crescimento humano e de formação cívica. Quem lê desenvolve espírito crítico, amplia horizontes, enriquece a linguagem, estimula a imaginação e compreende melhor o mundo e os outros. A leitura ajuda a formar cidadãos mais conscientes, mais informados, mais livres e mais capazes de participar ativamente na sociedade.


            Num tempo marcado pela rapidez da informação, pela dispersão e pelo domínio das tecnologias digitais, as bibliotecas continuam, por isso, a desempenhar um papel insubstituível. Não apenas como guardiãs da memória escrita, mas como espaços de mediação cultural e de construção de cidadania.


            Talvez por isso continue tão atual a reflexão de Umberto Eco (1983) a propósito da visão de Jorge Luis Borges: “A biblioteca é um modelo de universo”. E acrescentava Eco que devemos procurar transformá-la “à medida do homem”, incluindo o homem que conversa, que toma café, que vive os espaços com prazer. Ou seja: uma biblioteca onde apetece entrar, ficar e regressar.


            É precisamente essa transformação que continua em curso. As bibliotecas deixaram de ser apenas lugares onde se guardam livros. São hoje lugares onde se constrói conhecimento, cidadania, memória e futuro.


In "Correio do Minho" (28. maio. 2026)

A biblioteca: o valor do que não se paga

     

              Num tempo em que quase tudo exige pagamento, a biblioteca pública continua a ser uma exceção notável. Entra-se sem bilhete, permanece-se sem consumir, utiliza-se sem obrigação de pagar. Num mundo de cartões, subscrições e taxas, a biblioteca é um dos poucos espaços urbanos onde o cidadão não precisa de justificar a sua presença.       É um território de acesso livre num cenário social cada vez mais condicionado por barreiras económicas. A simples possibilidade de ocupar um lugar, abrir um livro e permanecer sem pressa constitui uma forma discreta de resistência à lógica dominante do consumo.     



            Esta gratuitidade, porém, começa a ser objeto de debate. Num contexto de orçamentos limitados e exigências crescentes, surge a pergunta inevitável: será sustentável manter tudo gratuito? E mais ainda: será que o que é gratuito é verdadeiramente valorizado? A pressão sobre as contas públicas, a necessidade de modernização tecnológica, a expansão de serviços digitais e a diversificação de públicos colocam desafios reais à gestão das bibliotecas. Alguns defendem que a ausência de pagamento pode gerar uma perceção de menor valor, como se o preço fosse o principal indicador de importância. Outros questionam se a gratuitidade absoluta não dificulta a criação de uma relação mais comprometida entre utilizador e instituição. Estas interrogações revelam uma tensão entre sustentabilidade financeira e missão social.


            A ideia de um pagamento simbólico, uma quota anual reduzida, uma taxa de inscrição, um contributo voluntário, aparece frequentemente como solução intermédia. Não para financiar integralmente o serviço, mas para reforçar o sentimento de pertença e responsabilidade. Quem paga, mesmo pouco, tende a cuidar mais. Pelo menos assim se argumenta. Acrescenta-se que uma contribuição, ainda que modesta, poderia ajudar a renovar coleções, apoiar atividades culturais, investir em inovação tecnológica ou melhorar as condições dos espaços. Defende-se também que o ato de contribuir financeiramente pode fortalecer o vínculo do utilizador com a biblioteca, transformando-o num participante mais ativo e consciente do valor do serviço que utiliza.


            Mas esta lógica merece reflexão. A biblioteca pública não é apenas um serviço cultural, é um pilar de cidadania. É um instrumento de democratização do conhecimento, de combate à iliteracia, de promoção da inclusão digital e de acesso a informação credível num tempo marcado pela desinformação. Introduzir um pagamento, ainda que simbólico, altera a sua natureza. O acesso deixa de ser universal por definição e passa a depender de uma condição, por mínima que seja. Para muitos utilizadores, sobretudo os mais vulneráveis, esse “valor simbólico” pode não ser assim tão simbólico. Uma pequena taxa pode representar uma barreira psicológica ou financeira que desencoraja a frequência. A universalidade não se mede apenas pelo montante cobrado, mas pelo princípio de que ninguém é excluído à partida.


            Há leitores que usam a biblioteca como segundo lar, estudantes sem espaço em casa, jovens que procuram um ambiente propício ao estudo, idosos que ali encontram companhia e rotina, pessoas em situação de desemprego que procuram informação, internet ou simplesmente um lugar onde estar. Para estes, a biblioteca é mais do que um serviço, é um apoio silencioso e constante. Cobrar pode significar afastar precisamente quem mais precisa, ampliando desigualdades que a própria biblioteca procura atenuar. Num contexto social já marcado por assimetrias, qualquer obstáculo adicional pode ter efeitos desproporcionais.


            Por outro lado, é inegável que a biblioteca tem custos reais, edifícios, profissionais qualificados, coleções atualizadas, tecnologia, atividades culturais e educativas. Manter infraestruturas adequadas, garantir acessibilidade, oferecer acesso à internet, promover oficinas, clubes de leitura e iniciativas para a comunidade implica investimento contínuo. E é legítimo perguntar se a comunidade reconhece esse valor e se participa ativamente na sua defesa. Talvez o desafio não esteja tanto em cobrar para entrar, mas em valorizar sem excluir. Através de financiamento público adequado, de apoio consistente das autarquias, de parcerias institucionais, de projetos comunitários, de campanhas de sensibilização e de uma maior consciência coletiva de que a biblioteca é um investimento estratégico e não uma despesa supérflua. Investir em bibliotecas é investir em capital humano, em pensamento crítico, em coesão social e em participação democrática.


            Talvez a verdadeira valorização da biblioteca não passe por pagar para entrar, mas por assumir, enquanto comunidade, que vale a pena financiá-la, defendê-la e usá-la. Valorizar implica frequentar, requisitar livros, participar em atividades, respeitar os espaços e os profissionais, envolver-se em iniciativas culturais e reconhecer o impacto positivo que a biblioteca tem na vida coletiva. Implica também exigir políticas públicas que assegurem a sua sustentabilidade a longo prazo. O retorno do investimento não se traduz em lucro imediato, mas em cidadãos mais informados, mais autónomos e mais capazes de participar na construção de uma sociedade justa.


            E num tempo em que quase tudo se compra, manter um espaço onde se entra livremente continua a ser um poderoso gesto civilizacional. É a afirmação de que o conhecimento não deve ser privilégio, mas direito; de que a cultura não é luxo, mas necessidade; de que a aprendizagem ao longo da vida é condição essencial para a liberdade individual e coletiva. Preservar a gratuitidade da biblioteca pública é, no fundo, preservar a ideia de que há bens comuns que pertencem a todos e que só fazem sentido quando permanecem abertos, acessíveis e partilhados.


In "Correio do Minho" (30. abril. 2026)

A biblioteca pública e a fidelidade à sua missão


            As bibliotecas públicas portuguesas viveram, nas últimas décadas, um processo de renovação que importa reconhecer. Modernizaram espaços, diversificaram serviços, aproximaram-se de públicos que durante muito tempo permaneceram afastados e afirmaram-se como equipamentos culturais de proximidade. Esse caminho é meritório e deve ser valorizado.



            A biblioteca contemporânea não é um armazém de livros, nem um espaço fechado sobre o silêncio absoluto. É um lugar vivo, que respira com a comunidade que serve. Contudo, toda a evolução exige reflexão. A abertura à comunidade não pode significar diluição da identidade. Nos últimos anos tem-se assistido, em algumas bibliotecas, à proliferação de atividades cuja relação com o livro, com a leitura e com a literacia é ténue ou inexistente. Fala-se de grupos de tricô, de costura, de trabalhos manuais ou de encontros essencialmente recreativos que podem decorrer em múltiplos outros espaços municipais igualmente vocacionados para o convívio e a ocupação de tempos livres. Não está em causa o valor humano dessas práticas. O convívio é necessário, a partilha é importante, o combate ao isolamento é uma prioridade social. O que se questiona é se cabe à biblioteca pública assumir indistintamente todas essas funções quando possui uma missão própria, clara e historicamente construída.

            O Manifesto da Biblioteca Pública aprovado pela UNESCO reafirma que a biblioteca é um centro local de informação que torna prontamente acessíveis aos seus utilizadores todos os tipos de conhecimento e informação. Sublinha a promoção da leitura desde a infância, o apoio à educação formal e informal, o estímulo à imaginação e à criatividade, o acesso livre e equitativo à cultura e à informação e o fortalecimento do pensamento crítico enquanto base de uma cidadania esclarecida. Estes princípios não são meras declarações simbólicas. São o fundamento ético e funcional da biblioteca pública. Quando a programação se afasta sistematicamente deste núcleo, corre-se o risco de transformar a biblioteca num espaço indiferenciado cujo principal argumento é a ocupação do tempo e não a formação do leitor nem o acesso ao conhecimento. Num país onde os índices de leitura continuam a revelar fragilidades e onde as desigualdades no acesso à informação persistem, a biblioteca pública desempenha um papel insubstituível. É, muitas vezes, o único espaço verdadeiramente democrático onde qualquer cidadão, independentemente da sua condição económica, pode aceder gratuitamente a livros, a recursos digitais, a jornais, a bases de dados, a atividades de mediação da leitura e a oportunidades de aprendizagem ao longo da vida.

            A biblioteca pública é também um espaço de liberdade intelectual. Defende o pluralismo, garante diversidade de pensamento, protege o direito à informação e promove a capacidade crítica. Num tempo marcado pela desinformação e pela superficialidade, este papel é mais relevante do que nunca. A sua função não é entreter indistintamente, mas oferecer instrumentos para compreender o mundo.

            É evidente que a biblioteca deve ser um lugar de encontro. Mas o encontro pode nascer do livro, da leitura partilhada, da escrita criativa, da memória coletiva, da narração oral, da ilustração, da investigação local, da literacia digital. A criatividade programática não exige afastamento da missão. Pelo contrário, exige que cada atividade dialogue com ela. Uma atividade manual pode integrar-se num projeto mais amplo de valorização do património imaterial, pode ser acompanhada por leitura de textos literários, pode gerar registos escritos, pode promover pesquisa histórica. Quando existe esta intencionalidade, a atividade reforça a identidade da biblioteca. Quando não existe, corre-se o risco de a biblioteca ser apenas o espaço disponível porque é confortável, central e gratuito.

            Os municípios possuem uma rede diversificada de equipamentos culturais e sociais. Centros de convívio, academias seniores, associações culturais e recreativas desempenham um papel essencial na dinamização comunitária. A biblioteca não precisa substituir esses espaços para provar a sua relevância. A sua força está precisamente na especificidade da sua missão.

            Reafirmar os valores da biblioteca pública não é defender uma visão elitista nem saudosista. É defender a coerência institucional. É reconhecer que, numa sociedade democrática, existem funções distintas e que a clareza dessas funções é o que permite servir melhor a comunidade. A biblioteca pública é o lugar do acesso livre ao conhecimento. É o espaço onde se forma o leitor desde a primeira infância. É o território da aprendizagem contínua. É o ponto de encontro entre tradição e inovação. É a casa comum da palavra escrita e da informação credível. Quando preserva esta identidade, torna-se insubstituível. Quando a dilui, corre o risco de perder a razão pela qual foi criada.

            Num tempo em que tantas instituições culturais enfrentam desafios de relevância e sustentabilidade, a biblioteca pública continua a ser uma das estruturas mais respeitadas e confiáveis da vida comunitária. Honrar essa confiança exige fidelidade à sua missão. Porque uma biblioteca que abdica do livro abdica do seu coração. E uma comunidade sem uma biblioteca fiel à sua essência perde muito mais do que um edifício. Perde um dos seus pilares de liberdade, de conhecimento e de futuro.

In "Correio do Minho" (5. março. 2026)

Álvaro Feijó (1917–1941): pioneiro do neo-realismo poético

              E m 1941, com apenas vinte e quatro anos de idade, faleceu, em Coimbra, o poeta vianense Álvaro  Feió, de nome completo Álvaro...