sexta-feira, 10 de julho de 2026

O património das bibliotecas e o primeiro livro impresso em Viana do Castelo

 

Muitas bibliotecas possuem nos seus acervos obras raras e de grande valor patrimonial que constituem verdadeiros atrativos e despertam as mais variadas atenções. Acresce a este valor o facto de serem, por vezes, obras relacionadas com os fundos locais e, por isso, intimamente ligadas à comunidade porque a ela dizem respeito. Isto, para falar de uma raridade bibliográfica intitulada “Vida de Dom Frei Bertolamev dos Martyres da Ordem dos Pregadores Arcebispo e Senhor de Braga Primas das Espanhas...”, da autoria de Frei Luís de Sousa, cuja primeira edição possui a particularidade de ter sido impressa em Viana, em 1619, à custa da Câmara. Isto mesmo pode ler-se no frontispício da obra: “Impressa na notavel Vila de Viana à conta da mesma Vila por Niculao Carvalho Impressor de S. Mgde. Anno 1619”.

Frontispício da edição princeps
    Dada a inexistência, nesta data, de tipografia em Viana «lembremos que, para a primeira edição da Vida de Dom Frei Bartolomeu, não veio só o impressor com os seus prelos, mas o próprio autor se deslocou expressamente do Convento de S. Domingos de Benfica para assistir aos trabalhos tipográficos e oferecer pessoalmente a obra aos vianenses», como salienta Fr. Raúl Rolo (In “Jornadas Bartolomeanas”. Viana do Castelo: Câmara Municipal, 1990, p. 122).

Esta obra é uma edição rara e de inquestionável valor bibliográfico. O seu autor é o escritor português de seu nome, no século, Manuel de Sousa Coutinho, 4º filho de Lopo de Sousa Coutinho, descendente do Conde de Marialva, nascido em Santarém por 1555 e falecido no Convento em Benfica, em Lisboa, em maio de 1632, que ficou conhecido na literatura portuguesa por Frei Luís de Sousa, nome que tomou ao professar na Ordem de S. Domingos e que adquiriu fama devido ao facto de Almeida Garrett o ter dado como título ao drama composto em 1843. 

Com a entrada de Manuel de Sousa Coutinho no convento, aos 58 anos de idade, nasce, sob o nome de Frei Luís de Sousa, o grande escritor que será encarregado pelos seus superiores de redigir, aproveitando a investigação e as notas deixadas por Frei Luís de Cacegas, anterior cronista da Ordem (falecido em 1616), a “História de São Domingos” e a “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires”. Por volta de 1617, Frei Luís de Sousa começa a redigir a “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires” por diligência da Câmara da então Vila de Viana que pretendia homenagear a memória do dominicano que ali fundara um convento, morrera e fora sepultado. Concluída em menos de dois anos, a obra veio a ser impressa em1619. Frei Luís de Sousa em prefácio assinado no convento de S. Domingos de Viana, em 7 de maio de 1619, oferece a sua obra “A CAMARA E GOVERNO / DA NOTAVEL VILLA DE VIANA / E A TODA A MAIS NOBREZA / & povo della”. De formato in-4º, esta edição princeps surge com portada alegórica gravada pelo artista de origem flamenga Juan Schorquens, que ganhou fama nos inícios do século XVII.

O sucesso deste primeiro livro editado em Viana é-nos revelado pelo próprio autor em 1625, ao dizer que «foi tão bem visto, pelos merecimentos do Santo, que dentro de seis anos se gastou a impressão, e é desejada segunda».

De inegável valor patrimonial, um exemplar da primeira edição desta obra, que retrata a vida do santo arcebispo de Braga que escolheu a cidade de Viana para aqui construir o Convento de Santa Cruz (S. Domingos) e aí passar o resto da sua vida, faz parte do fundo bibliográfico da Biblioteca Pública Municipal e, por isso, é motivo de orgulho para todos nós.

 

In “Correio do Minho” (10. novembro. 2016)

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