Em todas as
bibliotecas existem zonas de sombra. Não são lugares proibidos, mas espaços
pouco visitados, prateleiras altas ou recantos onde repousam livros que
deixaram de ser procurados. Há vinte, trinta anos que ninguém os requisita. Não
entram em listas de leitura, não figuram em programas escolares, não surgem em
pesquisas apressadas. Permanecem ali, silenciosos, como se o tempo tivesse
passado por eles sem se deter.
Foram
adquiridos com propósito. Um dia justificaram investimento público, escolha
criteriosa, expectativa de utilidade. Responderam a necessidades concretas de
outras épocas: manuais técnicos de profissões entretanto desaparecidas, estudos
científicos ultrapassados, ensaios políticos de contextos que já não existem,
enciclopédias que prometiam conter o mundo inteiro em volumes pesados e hoje
caberiam num telemóvel. Cada um desses livros foi, no seu tempo, resposta a uma
necessidade.
O problema é
que as bibliotecas, ao contrário da memória, têm limites físicos. As estantes
enchem-se, os depósitos esgotam-se, e todos os anos chegam novos livros, novas
áreas, novas linguagens, novos suportes. O espaço, que outrora parecia
inesgotável, tornou-se um recurso escasso e disputado. Para que o presente
tenha lugar, algo do passado tem de ceder. É aqui que surge um dos momentos
mais delicados da vida de uma biblioteca: decidir o que já não pode ficar. Não
é apenas uma operação técnica, é um exercício de responsabilidade cultural.
O termo
profissional é “abate”. Palavra seca, quase violenta, para um processo que
envolve reflexão, prudência e, muitas vezes, hesitação. Analisa-se a frequência
de utilização, a atualidade da informação, o estado do exemplar, a existência
de duplicados, a disponibilidade noutros catálogos. Mas avalia-se também algo
menos mensurável: o valor simbólico, histórico, local. Um livro pode estar
desatualizado e, ainda assim, ser insubstituível como testemunho de um tempo,
de uma mentalidade, de uma comunidade.
Há obras que
já não ensinam, mas ajudam a compreender. Que já não orientam o futuro, mas
explicam o passado. Estudos sobre indústrias extintas, monografias de aldeias
transformadas, relatórios, memórias, edições de autor que não voltarão a ser
impressas. Para quem olha apenas números, parecem inúteis; para quem pensa em
memória coletiva, são fragmentos de identidade.
Os
bibliotecários conhecem bem este conflito. São mediadores entre o que foi e o
que é preciso ser. Sabem que uma biblioteca viva precisa de se renovar, mas
também sabem que não pode trair a sua função de guardiã do tempo. Cada livro
retirado é uma decisão irreversível. Diferente de um ficheiro digital, que se
replica, o exemplar físico carrega marcas de uso, edições esgotadas, contextos
editoriais que podem desaparecer sem regresso.
Por isso, o
abate raramente é um gesto automático. É um processo que pesa. Há discussões
internas, critérios cruzados, dúvidas que persistem. Alguns livros encontram
novo destino em doações, feiras solidárias, instituições sociais, projetos
comunitários. Outros, demasiado degradados ou tecnicamente obsoletos, seguem
para reciclagem. E há sempre a inquietação silenciosa: e se entre eles estiver
algo que um dia fará falta?
Talvez estes
livros esquecidos nos interpelem mais do que pensamos. Falam-nos das mudanças
de interesse, das modas intelectuais, das prioridades que se deslocam. Revelam
não apenas o que envelheceu, mas o que a sociedade deixou de perguntar. Mostram
que o conhecimento não desaparece de repente; vai ficando à margem, à espera de
outro olhar.
Num mundo
dominado pela urgência, pelo imediato e pela atualização constante, aquelas
prateleiras quase intocadas lembram que o conhecimento tem ritmos longos. Que
as ideias adormecem, mas não morrem. Que o valor de um livro não se mede apenas
pela procura do momento, mas pela possibilidade de, um dia, voltar a ser
necessário.
Uma
biblioteca não é apenas um espaço de novidades. É também um território de
espera. Entre o que chega e o que parte, constrói-se diariamente um equilíbrio
frágil entre memória e futuro. E é nesse equilíbrio, muitas vezes invisível,
que reside uma das tarefas mais difíceis, e mais nobres, do trabalho
bibliotecário.
In "Correio do Minho" (5. fevereiro.2026)

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