sexta-feira, 3 de julho de 2026

O destino dos livros que ninguém procura

 

Em todas as bibliotecas existem zonas de sombra. Não são lugares proibidos, mas espaços pouco visitados, prateleiras altas ou recantos onde repousam livros que deixaram de ser procurados. Há vinte, trinta anos que ninguém os requisita. Não entram em listas de leitura, não figuram em programas escolares, não surgem em pesquisas apressadas. Permanecem ali, silenciosos, como se o tempo tivesse passado por eles sem se deter.



Foram adquiridos com propósito. Um dia justificaram investimento público, escolha criteriosa, expectativa de utilidade. Responderam a necessidades concretas de outras épocas: manuais técnicos de profissões entretanto desaparecidas, estudos científicos ultrapassados, ensaios políticos de contextos que já não existem, enciclopédias que prometiam conter o mundo inteiro em volumes pesados e hoje caberiam num telemóvel. Cada um desses livros foi, no seu tempo, resposta a uma necessidade.


O problema é que as bibliotecas, ao contrário da memória, têm limites físicos. As estantes enchem-se, os depósitos esgotam-se, e todos os anos chegam novos livros, novas áreas, novas linguagens, novos suportes. O espaço, que outrora parecia inesgotável, tornou-se um recurso escasso e disputado. Para que o presente tenha lugar, algo do passado tem de ceder. É aqui que surge um dos momentos mais delicados da vida de uma biblioteca: decidir o que já não pode ficar. Não é apenas uma operação técnica, é um exercício de responsabilidade cultural.


O termo profissional é “abate”. Palavra seca, quase violenta, para um processo que envolve reflexão, prudência e, muitas vezes, hesitação. Analisa-se a frequência de utilização, a atualidade da informação, o estado do exemplar, a existência de duplicados, a disponibilidade noutros catálogos. Mas avalia-se também algo menos mensurável: o valor simbólico, histórico, local. Um livro pode estar desatualizado e, ainda assim, ser insubstituível como testemunho de um tempo, de uma mentalidade, de uma comunidade.


Há obras que já não ensinam, mas ajudam a compreender. Que já não orientam o futuro, mas explicam o passado. Estudos sobre indústrias extintas, monografias de aldeias transformadas, relatórios, memórias, edições de autor que não voltarão a ser impressas. Para quem olha apenas números, parecem inúteis; para quem pensa em memória coletiva, são fragmentos de identidade.


Os bibliotecários conhecem bem este conflito. São mediadores entre o que foi e o que é preciso ser. Sabem que uma biblioteca viva precisa de se renovar, mas também sabem que não pode trair a sua função de guardiã do tempo. Cada livro retirado é uma decisão irreversível. Diferente de um ficheiro digital, que se replica, o exemplar físico carrega marcas de uso, edições esgotadas, contextos editoriais que podem desaparecer sem regresso.


Por isso, o abate raramente é um gesto automático. É um processo que pesa. Há discussões internas, critérios cruzados, dúvidas que persistem. Alguns livros encontram novo destino em doações, feiras solidárias, instituições sociais, projetos comunitários. Outros, demasiado degradados ou tecnicamente obsoletos, seguem para reciclagem. E há sempre a inquietação silenciosa: e se entre eles estiver algo que um dia fará falta?

 

Talvez estes livros esquecidos nos interpelem mais do que pensamos. Falam-nos das mudanças de interesse, das modas intelectuais, das prioridades que se deslocam. Revelam não apenas o que envelheceu, mas o que a sociedade deixou de perguntar. Mostram que o conhecimento não desaparece de repente; vai ficando à margem, à espera de outro olhar.


Num mundo dominado pela urgência, pelo imediato e pela atualização constante, aquelas prateleiras quase intocadas lembram que o conhecimento tem ritmos longos. Que as ideias adormecem, mas não morrem. Que o valor de um livro não se mede apenas pela procura do momento, mas pela possibilidade de, um dia, voltar a ser necessário.


Uma biblioteca não é apenas um espaço de novidades. É também um território de espera. Entre o que chega e o que parte, constrói-se diariamente um equilíbrio frágil entre memória e futuro. E é nesse equilíbrio, muitas vezes invisível, que reside uma das tarefas mais difíceis, e mais nobres, do trabalho bibliotecário.


In "Correio do Minho" (5. fevereiro.2026)

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