sexta-feira, 3 de julho de 2026

A biblioteca: o valor do que não se paga

     

              Num tempo em que quase tudo exige pagamento, a biblioteca pública continua a ser uma exceção notável. Entra-se sem bilhete, permanece-se sem consumir, utiliza-se sem obrigação de pagar. Num mundo de cartões, subscrições e taxas, a biblioteca é um dos poucos espaços urbanos onde o cidadão não precisa de justificar a sua presença.       É um território de acesso livre num cenário social cada vez mais condicionado por barreiras económicas. A simples possibilidade de ocupar um lugar, abrir um livro e permanecer sem pressa constitui uma forma discreta de resistência à lógica dominante do consumo.     



            Esta gratuitidade, porém, começa a ser objeto de debate. Num contexto de orçamentos limitados e exigências crescentes, surge a pergunta inevitável: será sustentável manter tudo gratuito? E mais ainda: será que o que é gratuito é verdadeiramente valorizado? A pressão sobre as contas públicas, a necessidade de modernização tecnológica, a expansão de serviços digitais e a diversificação de públicos colocam desafios reais à gestão das bibliotecas. Alguns defendem que a ausência de pagamento pode gerar uma perceção de menor valor, como se o preço fosse o principal indicador de importância. Outros questionam se a gratuitidade absoluta não dificulta a criação de uma relação mais comprometida entre utilizador e instituição. Estas interrogações revelam uma tensão entre sustentabilidade financeira e missão social.


            A ideia de um pagamento simbólico, uma quota anual reduzida, uma taxa de inscrição, um contributo voluntário, aparece frequentemente como solução intermédia. Não para financiar integralmente o serviço, mas para reforçar o sentimento de pertença e responsabilidade. Quem paga, mesmo pouco, tende a cuidar mais. Pelo menos assim se argumenta. Acrescenta-se que uma contribuição, ainda que modesta, poderia ajudar a renovar coleções, apoiar atividades culturais, investir em inovação tecnológica ou melhorar as condições dos espaços. Defende-se também que o ato de contribuir financeiramente pode fortalecer o vínculo do utilizador com a biblioteca, transformando-o num participante mais ativo e consciente do valor do serviço que utiliza.


            Mas esta lógica merece reflexão. A biblioteca pública não é apenas um serviço cultural, é um pilar de cidadania. É um instrumento de democratização do conhecimento, de combate à iliteracia, de promoção da inclusão digital e de acesso a informação credível num tempo marcado pela desinformação. Introduzir um pagamento, ainda que simbólico, altera a sua natureza. O acesso deixa de ser universal por definição e passa a depender de uma condição, por mínima que seja. Para muitos utilizadores, sobretudo os mais vulneráveis, esse “valor simbólico” pode não ser assim tão simbólico. Uma pequena taxa pode representar uma barreira psicológica ou financeira que desencoraja a frequência. A universalidade não se mede apenas pelo montante cobrado, mas pelo princípio de que ninguém é excluído à partida.


            Há leitores que usam a biblioteca como segundo lar, estudantes sem espaço em casa, jovens que procuram um ambiente propício ao estudo, idosos que ali encontram companhia e rotina, pessoas em situação de desemprego que procuram informação, internet ou simplesmente um lugar onde estar. Para estes, a biblioteca é mais do que um serviço, é um apoio silencioso e constante. Cobrar pode significar afastar precisamente quem mais precisa, ampliando desigualdades que a própria biblioteca procura atenuar. Num contexto social já marcado por assimetrias, qualquer obstáculo adicional pode ter efeitos desproporcionais.


            Por outro lado, é inegável que a biblioteca tem custos reais, edifícios, profissionais qualificados, coleções atualizadas, tecnologia, atividades culturais e educativas. Manter infraestruturas adequadas, garantir acessibilidade, oferecer acesso à internet, promover oficinas, clubes de leitura e iniciativas para a comunidade implica investimento contínuo. E é legítimo perguntar se a comunidade reconhece esse valor e se participa ativamente na sua defesa. Talvez o desafio não esteja tanto em cobrar para entrar, mas em valorizar sem excluir. Através de financiamento público adequado, de apoio consistente das autarquias, de parcerias institucionais, de projetos comunitários, de campanhas de sensibilização e de uma maior consciência coletiva de que a biblioteca é um investimento estratégico e não uma despesa supérflua. Investir em bibliotecas é investir em capital humano, em pensamento crítico, em coesão social e em participação democrática.


            Talvez a verdadeira valorização da biblioteca não passe por pagar para entrar, mas por assumir, enquanto comunidade, que vale a pena financiá-la, defendê-la e usá-la. Valorizar implica frequentar, requisitar livros, participar em atividades, respeitar os espaços e os profissionais, envolver-se em iniciativas culturais e reconhecer o impacto positivo que a biblioteca tem na vida coletiva. Implica também exigir políticas públicas que assegurem a sua sustentabilidade a longo prazo. O retorno do investimento não se traduz em lucro imediato, mas em cidadãos mais informados, mais autónomos e mais capazes de participar na construção de uma sociedade justa.


            E num tempo em que quase tudo se compra, manter um espaço onde se entra livremente continua a ser um poderoso gesto civilizacional. É a afirmação de que o conhecimento não deve ser privilégio, mas direito; de que a cultura não é luxo, mas necessidade; de que a aprendizagem ao longo da vida é condição essencial para a liberdade individual e coletiva. Preservar a gratuitidade da biblioteca pública é, no fundo, preservar a ideia de que há bens comuns que pertencem a todos e que só fazem sentido quando permanecem abertos, acessíveis e partilhados.


In "Correio do Minho" (30. abril. 2026)

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