Num tempo em que quase tudo exige pagamento, a biblioteca pública continua a ser uma exceção notável. Entra-se sem bilhete, permanece-se sem consumir, utiliza-se sem obrigação de pagar. Num mundo de cartões, subscrições e taxas, a biblioteca é um dos poucos espaços urbanos onde o cidadão não precisa de justificar a sua presença. É um território de acesso livre num cenário social cada vez mais condicionado por barreiras económicas. A simples possibilidade de ocupar um lugar, abrir um livro e permanecer sem pressa constitui uma forma discreta de resistência à lógica dominante do consumo.
Esta gratuitidade, porém, começa a
ser objeto de debate. Num contexto de orçamentos limitados e exigências
crescentes, surge a pergunta inevitável: será sustentável manter tudo gratuito?
E mais ainda: será que o que é gratuito é verdadeiramente valorizado? A pressão
sobre as contas públicas, a necessidade de modernização tecnológica, a expansão
de serviços digitais e a diversificação de públicos colocam desafios reais à
gestão das bibliotecas. Alguns defendem que a ausência de pagamento pode gerar
uma perceção de menor valor, como se o preço fosse o principal indicador de
importância. Outros questionam se a gratuitidade absoluta não dificulta a
criação de uma relação mais comprometida entre utilizador e instituição. Estas
interrogações revelam uma tensão entre sustentabilidade financeira e missão
social.
A ideia de um pagamento simbólico,
uma quota anual reduzida, uma taxa de inscrição, um contributo voluntário,
aparece frequentemente como solução intermédia. Não para financiar
integralmente o serviço, mas para reforçar o sentimento de pertença e responsabilidade.
Quem paga, mesmo pouco, tende a cuidar mais. Pelo menos assim se argumenta.
Acrescenta-se que uma contribuição, ainda que modesta, poderia ajudar a renovar
coleções, apoiar atividades culturais, investir em inovação tecnológica ou
melhorar as condições dos espaços. Defende-se também que o ato de contribuir
financeiramente pode fortalecer o vínculo do utilizador com a biblioteca,
transformando-o num participante mais ativo e consciente do valor do serviço
que utiliza.
Mas esta lógica merece reflexão. A
biblioteca pública não é apenas um serviço cultural, é um pilar de cidadania. É
um instrumento de democratização do conhecimento, de combate à iliteracia, de
promoção da inclusão digital e de acesso a informação credível num tempo
marcado pela desinformação. Introduzir um pagamento, ainda que simbólico,
altera a sua natureza. O acesso deixa de ser universal por definição e passa a
depender de uma condição, por mínima que seja. Para muitos utilizadores,
sobretudo os mais vulneráveis, esse “valor simbólico” pode não ser assim tão
simbólico. Uma pequena taxa pode representar uma barreira psicológica ou
financeira que desencoraja a frequência. A universalidade não se mede apenas
pelo montante cobrado, mas pelo princípio de que ninguém é excluído à partida.
Há leitores que usam a biblioteca
como segundo lar, estudantes sem espaço em casa, jovens que procuram um
ambiente propício ao estudo, idosos que ali encontram companhia e rotina,
pessoas em situação de desemprego que procuram informação, internet ou simplesmente
um lugar onde estar. Para estes, a biblioteca é mais do que um serviço, é um
apoio silencioso e constante. Cobrar pode significar afastar precisamente quem
mais precisa, ampliando desigualdades que a própria biblioteca procura atenuar.
Num contexto social já marcado por assimetrias, qualquer obstáculo adicional
pode ter efeitos desproporcionais.
Por outro lado, é inegável que a
biblioteca tem custos reais, edifícios, profissionais qualificados, coleções
atualizadas, tecnologia, atividades culturais e educativas. Manter
infraestruturas adequadas, garantir acessibilidade, oferecer acesso à internet,
promover oficinas, clubes de leitura e iniciativas para a comunidade implica
investimento contínuo. E é legítimo perguntar se a comunidade reconhece esse
valor e se participa ativamente na sua defesa. Talvez o desafio não esteja
tanto em cobrar para entrar, mas em valorizar sem excluir. Através de
financiamento público adequado, de apoio consistente das autarquias, de
parcerias institucionais, de projetos comunitários, de campanhas de
sensibilização e de uma maior consciência coletiva de que a biblioteca é um
investimento estratégico e não uma despesa supérflua. Investir em bibliotecas é
investir em capital humano, em pensamento crítico, em coesão social e em
participação democrática.
Talvez a verdadeira valorização da
biblioteca não passe por pagar para entrar, mas por assumir, enquanto
comunidade, que vale a pena financiá-la, defendê-la e usá-la. Valorizar implica
frequentar, requisitar livros, participar em atividades, respeitar os espaços e
os profissionais, envolver-se em iniciativas culturais e reconhecer o impacto
positivo que a biblioteca tem na vida coletiva. Implica também exigir políticas
públicas que assegurem a sua sustentabilidade a longo prazo. O retorno do
investimento não se traduz em lucro imediato, mas em cidadãos mais informados,
mais autónomos e mais capazes de participar na construção de uma sociedade
justa.
E num tempo em que quase tudo se
compra, manter um espaço onde se entra livremente continua a ser um poderoso
gesto civilizacional. É a afirmação de que o conhecimento não deve ser
privilégio, mas direito; de que a cultura não é luxo, mas necessidade; de que a
aprendizagem ao longo da vida é condição essencial para a liberdade individual
e coletiva. Preservar a gratuitidade da biblioteca pública é, no fundo,
preservar a ideia de que há bens comuns que pertencem a todos e que só fazem
sentido quando permanecem abertos, acessíveis e partilhados.
In "Correio do Minho" (30. abril. 2026)

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