Quando, em 1796, foi criada a Real
Biblioteca Pública da Corte, considerada a primeira biblioteca pública
portuguesa, estava ainda muito distante a ideia de biblioteca que hoje
conhecemos. Nascida num contexto iluminista e herdeira do pensamento reformador
do tempo pombalino, a biblioteca era sobretudo um espaço de conservação e
consulta, reservado a um grupo restrito de eruditos, investigadores e membros
das elites culturais. O acesso ao livro e ao conhecimento estava longe de ser
entendido como um direito universal. E, durante muitos anos, ler, estudar e
investigar eram privilégios de poucos.
Por muito tempo, as bibliotecas mantiveram essa imagem de lugares silenciosos, quase solenes, marcados pela contenção e pela distância. Eram espaços organizados em função da preservação das coleções e do trabalho intelectual de públicos muito específicos. A evolução foi lenta, acompanhando as mudanças sociais, educativas e culturais do país. A alfabetização limitada da população portuguesa, durante largas décadas, também não favoreceu uma verdadeira democratização do acesso ao livro e à leitura.
Só nas últimas décadas do século XX
se assistiu, verdadeiramente, a uma transformação profunda do conceito de
biblioteca pública em Portugal. Um momento decisivo desse processo foi a
criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, lançada em 1987, que
introduziu um novo modelo de biblioteca: mais moderna, mais aberta e mais
próxima das comunidades. Muitas autarquias passaram então a investir na
construção ou renovação destes equipamentos culturais, compreendendo que uma
biblioteca podia ser muito mais do que um simples espaço de armazenamento de
livros.
Esse novo paradigma alterou
profundamente a missão das bibliotecas. O foco deixou de estar apenas na
organização e preservação dos documentos impressos para passar a centrar-se
também nas pessoas e nas comunidades. A biblioteca pública começou a afirmar-se
como espaço de acesso livre à informação, ao conhecimento, à cultura e à
participação cívica. Tornou-se um serviço público essencial, aberto a todos,
independentemente da idade, da condição social ou do nível de escolaridade.
Hoje, as bibliotecas são espaços
multifuncionais e dinâmicos. Nelas convivem livros, jornais e revistas com
computadores, acesso à internet, recursos digitais e novas tecnologias. Acolhem
atividades para crianças, sessões da hora do conto, clubes de leitura,
encontros com escritores, exposições, ações de formação, debates ou
apresentações de livros. Em muitas localidades, a biblioteca tornou-se um dos
principais centros de vida cultural da comunidade.
Mas talvez a maior transformação
tenha ocorrido na forma como estes espaços passaram a ser vividos. A biblioteca
deixou de ser apenas um lugar de silêncio obrigatório para se tornar também um
lugar de encontro, de convívio e de partilha. Um espaço intergeracional, onde
diferentes públicos encontram oportunidades de aprendizagem, lazer e
descoberta. Um espaço onde se pode estudar, trabalhar, conversar, participar
numa atividade cultural ou simplesmente permanecer.
Entre os seus eixos fundamentais
continua, naturalmente, a estar a promoção do livro e da leitura. Porque ler
continua a ser um instrumento essencial de crescimento humano e de formação
cívica. Quem lê desenvolve espírito crítico, amplia horizontes, enriquece a
linguagem, estimula a imaginação e compreende melhor o mundo e os outros. A
leitura ajuda a formar cidadãos mais conscientes, mais informados, mais livres
e mais capazes de participar ativamente na sociedade.
Num tempo marcado pela rapidez da
informação, pela dispersão e pelo domínio das tecnologias digitais, as
bibliotecas continuam, por isso, a desempenhar um papel insubstituível. Não
apenas como guardiãs da memória escrita, mas como espaços de mediação cultural
e de construção de cidadania.
Talvez por isso continue tão atual a
reflexão de Umberto Eco (1983) a propósito da visão de Jorge Luis Borges: “A
biblioteca é um modelo de universo”. E acrescentava Eco que devemos procurar
transformá-la “à medida do homem”, incluindo o homem que conversa, que toma
café, que vive os espaços com prazer. Ou seja: uma biblioteca onde apetece
entrar, ficar e regressar.
É precisamente essa transformação
que continua em curso. As bibliotecas deixaram de ser apenas lugares onde se
guardam livros. São hoje lugares onde se constrói conhecimento, cidadania,
memória e futuro.
In "Correio do Minho" (28. maio. 2026)

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