sexta-feira, 3 de julho de 2026

As bibliotecas são espaços em constante transformação

 

            Quando, em 1796, foi criada a Real Biblioteca Pública da Corte, considerada a primeira biblioteca pública portuguesa, estava ainda muito distante a ideia de biblioteca que hoje conhecemos. Nascida num contexto iluminista e herdeira do pensamento reformador do tempo pombalino, a biblioteca era sobretudo um espaço de conservação e consulta, reservado a um grupo restrito de eruditos, investigadores e membros das elites culturais. O acesso ao livro e ao conhecimento estava longe de ser entendido como um direito universal. E, durante muitos anos, ler, estudar e investigar eram privilégios de poucos.


            Por muito tempo, as bibliotecas mantiveram essa imagem de lugares silenciosos, quase solenes, marcados pela contenção e pela distância. Eram espaços organizados em função da preservação das coleções e do trabalho intelectual de públicos muito específicos. A evolução foi lenta, acompanhando as mudanças sociais, educativas e culturais do país. A alfabetização limitada da população portuguesa, durante largas décadas, também não favoreceu uma verdadeira democratização do acesso ao livro e à leitura.



            Só nas últimas décadas do século XX se assistiu, verdadeiramente, a uma transformação profunda do conceito de biblioteca pública em Portugal. Um momento decisivo desse processo foi a criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, lançada em 1987, que introduziu um novo modelo de biblioteca: mais moderna, mais aberta e mais próxima das comunidades. Muitas autarquias passaram então a investir na construção ou renovação destes equipamentos culturais, compreendendo que uma biblioteca podia ser muito mais do que um simples espaço de armazenamento de livros.


            Esse novo paradigma alterou profundamente a missão das bibliotecas. O foco deixou de estar apenas na organização e preservação dos documentos impressos para passar a centrar-se também nas pessoas e nas comunidades. A biblioteca pública começou a afirmar-se como espaço de acesso livre à informação, ao conhecimento, à cultura e à participação cívica. Tornou-se um serviço público essencial, aberto a todos, independentemente da idade, da condição social ou do nível de escolaridade.


            Hoje, as bibliotecas são espaços multifuncionais e dinâmicos. Nelas convivem livros, jornais e revistas com computadores, acesso à internet, recursos digitais e novas tecnologias. Acolhem atividades para crianças, sessões da hora do conto, clubes de leitura, encontros com escritores, exposições, ações de formação, debates ou apresentações de livros. Em muitas localidades, a biblioteca tornou-se um dos principais centros de vida cultural da comunidade.


            Mas talvez a maior transformação tenha ocorrido na forma como estes espaços passaram a ser vividos. A biblioteca deixou de ser apenas um lugar de silêncio obrigatório para se tornar também um lugar de encontro, de convívio e de partilha. Um espaço intergeracional, onde diferentes públicos encontram oportunidades de aprendizagem, lazer e descoberta. Um espaço onde se pode estudar, trabalhar, conversar, participar numa atividade cultural ou simplesmente permanecer.


            Entre os seus eixos fundamentais continua, naturalmente, a estar a promoção do livro e da leitura. Porque ler continua a ser um instrumento essencial de crescimento humano e de formação cívica. Quem lê desenvolve espírito crítico, amplia horizontes, enriquece a linguagem, estimula a imaginação e compreende melhor o mundo e os outros. A leitura ajuda a formar cidadãos mais conscientes, mais informados, mais livres e mais capazes de participar ativamente na sociedade.


            Num tempo marcado pela rapidez da informação, pela dispersão e pelo domínio das tecnologias digitais, as bibliotecas continuam, por isso, a desempenhar um papel insubstituível. Não apenas como guardiãs da memória escrita, mas como espaços de mediação cultural e de construção de cidadania.


            Talvez por isso continue tão atual a reflexão de Umberto Eco (1983) a propósito da visão de Jorge Luis Borges: “A biblioteca é um modelo de universo”. E acrescentava Eco que devemos procurar transformá-la “à medida do homem”, incluindo o homem que conversa, que toma café, que vive os espaços com prazer. Ou seja: uma biblioteca onde apetece entrar, ficar e regressar.


            É precisamente essa transformação que continua em curso. As bibliotecas deixaram de ser apenas lugares onde se guardam livros. São hoje lugares onde se constrói conhecimento, cidadania, memória e futuro.


In "Correio do Minho" (28. maio. 2026)

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